Capítulo-20
Naquela manhã, depois da chegada de Catarina, escolhi me ocupar mais com as coisas de Cecília. E quando minha pequena desceu para tomar café, pedi a Quitéria que ficasse de olho nela e comecei umas mudanças no quarto.
Assim que comecei a arrumação, vi Catarina passar no corredor dizendo a Benedita que ia visitar umas amigas.
Enquanto arrumava tudo, pensava na vida que o destino reservou para aquela criança. Ela tinha seis anos e nenhuma marca de escola. Nenhum desenho pendurado na parede com letras tortas, nenhum caderno rabiscado com o nome dela, nenhuma mochila jogada num canto. Nada.
Arrumei uma pequena mesa, acompanhada de duas cadeiras: uma do tamanho dela, outra do meu. Coloquei papel branco, limpo, esperando desenhos que ainda não tinham forma.
Enquanto organizava, senti um nó se formar na garganta. Por que Cecilia não ia à escola?
O que me incomodava não era apenas a ausência de rotina escolar. Era o isolamento completo de uma criança que precisava de amigos. A fazenda era grande, a casa cheia de gente, mas Cecilia vivia como se estivesse numa bolha invisível
Quando Cecilia apareceu na porta, ficou parada, observando a mudança. Ajoelhei-me para ficar à altura dos olhos dela.
— Gostou? — perguntei.
Ela deu um passo lento para dentro do quarto. Tocou a mesa com a ponta dos dedos, depois os lápis. Pegou um papel, virou, virou de novo. Em seguida sentou-se na cadeira pequena e sorriu. Um sorriso discreto, quase tímido.
Sentei-me ao lado dela e peguei um lápis. Comecei um desenho. Ela pegou outro lápis e me imitou. Passamos um tempo assim, em silêncio. Ela desenhou linhas, rabiscos, algo que parecia uma casa com um sol exagerado. Eu a deixei à vontade para desenhar o que quisesse.
Depois de bastante tempo vendo Cecilia curvada sobre o livro de desenhos, dei uma pausa para ela, guardando todo o material.
Naquele momento, eu lembrei de minha mãe. Ela costumava chegar cansada e ouvir música para relaxar. Então caminhei até o pequeno sistema de som no canto do quarto e escolhi uma música de ritmo lento, que me trouxesse um pouco de paz.
Não era dada a músicas muito dançantes. O meu temperamento introvertido não me permitia ir tão longe. Gostava de ouvir algo suave e com batidas mais lentas, ainda que moderna.
Senti meu rosto arder de vergonha, e talvez algo mais que para mim naquele momento ainda era um sentimento desconhecido. Senti que algo invisível atravessou a distância entre nós como um raio.
A música continuava a tocar. Cecília, alheia à eletricidade no ar, continuava a rodopiar no outro canto do quarto, rindo para sua boneca.
O modo como Adriano me olhava fazia com que eu me sentisse exposta como se estivesse nua. Eu podia sentir o suor leve na minha nuca, o calor da minha pele e um desconforto me invadindo toda.
— Eu achei que um pouco de diversão faria bem para ela — eu disse, tentando manter a voz firme, embora estivesse ofegante.
Adriano permaneceu imóvel ainda durante um bom tempo como se não tivesse escutado o que eu acabara de dizer. Então, de repente, recuperando sua postura dura e fria, ele caminhou pelo corredor em direção a escada.
Eu olhei para o espelho no canto do quarto. Meus olhos brilhavam, meus lábios estavam vermelhos e meu corpo ainda pulsava com o ritmo daquela dança. Ou era por causa da presença dele? Eu não sabia dizer.

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