Eu estava sentada no chão, encostada na cama de Cecilia, observando o jeito como a respiração dela se acalmava depois de um dia inteiro de descobertas silenciosas, quando percebi que meus olhos pesavam.
Deitei-me ao lado dela, por cima da colcha, sem tirar os sapatos. A intenção era apenas descansar um pouco. Só um pouco. Cecilia se mexeu, como se soubesse que eu estava ali de verdade, e apoiou a cabeça no meu braço.
Adormeci.
Quando acordei, foi como emergir de um fundo escuro e denso. Não houve barulho que me despertasse, nem sonho interrompido. Abri os olhos e encontrei a escuridão. A luz da tarde tinha ido embora, e as cortinas agora eram apenas sombras recortadas contra a janela. O quarto estava silencioso, exceto pela respiração tranquila de Cecilia, que dormia profundamente.
Levantei-me devagar. A porta do quarto estava apenas encostada, como eu havia deixado. Um filete de sombra do corredor se projetava para dentro, fino como uma linha de grafite. Eu precisava ir para o meu quarto. Toquei a maçaneta com cuidado, tentando não fazer barulho. Foi então que ouvi passos.
Os passos vinham do fundo do corredor, lentos, ritmados, acompanhados por um som baixo, quase um sussurro cantado. Reconheci a melodia na voz de Catarina. Ela cantarolava se perdendo, como se estivesse pensando em outra coisa.
Afastei-me um pouco da porta e fiquei atrás dela, o corpo colado à madeira. Catarina parou a poucos metros do quarto de Cecilia. O cantarolar cessou.
— Catarina? — ouvi a voz de Adriano, vinda da outra extremidade do corredor.
O tom dele era baixo, mas havia algo tenso ali, um fio esticado demais.
— Oi — ela respondeu, com naturalidade. — Te acordei?
Em vez de responder Adriano lhe fez outra pergunta.
— Onde você estava?
Houve um pequeno silêncio. Curto demais para ser casual, longo demais para ser ignorado.
— Fui visitar umas amigas — respondeu Catarina. A voz dela soou leve, mas havia um cuidado excessivo nas palavras.
— Na vila? — Adriano perguntou.
— Um pouco mais longe — ela disse. — Precisava sair, respirar.
Ele suspirou.
— Você estava com o Leon?
Meu coração deu um salto.
— Não — Catarina respondeu rápido demais. — Não estava.
— Só… — ele começou, e parou. — Só vai com calma.
— Não se preocupe, irmão. As coisas agora são um pouco diferentes do que foram no passado. Boa noite. — Catarina finalizou a conversa.
Ouvi o som da porta do quarto dela se abrindo e fechando. O corredor ficou em silêncio.
Eu permaneci imóvel, atrás da porta do quarto de Cecilia.
Aquela conversa, ouvida sem querer, tinha despertado ainda mais a minha curiosidade. Não esqueça tudo o que você passou. O que Catarina havia passado? E por que Leon, tão tranquilo à primeira vista, parecia ser um ponto sensível naquela casa?
Esperei. Contei mentalmente os segundos. Um, dois, três… até perder a conta. Só quando tive certeza de que o corredor estava vazio é que me mexi.
Abri a porta com cuidado e saí, pisando no assoalho com a ponta dos pés. Passei pelo quarto de Catarina sem olhar. Cheguei ao meu quarto e fechei a porta devagar, encostando as costas nela por um instante.
Deitei-me sem acender a luz. O teto escuro me devolveu pensamentos que eu não conseguia organizar. Catarina, com seu sorriso fácil e seus silêncios calculados. Adriano, dividido entre proteção e controle. Leon, pairando como uma presença que ninguém nomeava por completo.
Fechei os olhos e tentei dormir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO