A manhã chegou quente. Eu dormi pouco.
Depois que escovei os dentes e me troquei, desci para a cozinha que estava vazia. Quitéria não estava lá, mas o café da manhã já estava pronto. Coloquei os alimentos necessários numa bandeja e levei para o quarto de Cecília.
Depois que nos alimentamos, aproveitei o quarto arrumado. O canto de estudos parecia esperar por nós. Cecilia sentou-se à mesa pequena. Sentei-me à frente dela e sorri. Estávamos começando as aulas de Libras, mas não havia pressa. Eu iria respeitar o tempo dela.
Apontei para mim.
— Marja — fiz o sinal com as mãos, devagar, articulando cada movimento.
Ela acompanhou com os olhos atentos. Repeti. Mais uma vez. Depois apontei para ela, levantando as sobrancelhas em pergunta. Cecilia hesitou, mordeu o lábio inferior e tentou. O gesto saiu torto, tímido, mas saiu.
— Isso — murmurei. — Muito bem.
Começamos pelo básico. Eu. Você. Casa. Comer. Brincar. Dormir. Acordar. Eu sabia exatamente onde tocar, quando repetir, quando esperar. Os anos de curso e de sala de aula voltaram para o meu corpo como um idioma antigo que nunca se esquece. Ensinei crianças surdas-mudas por tempo suficiente para reconhecer o instante exato em que a compreensão acontece — não nos olhos apenas, mas na postura inteira.
Cecilia aprendia rápido.
Quando o sol já estava alto, preparei o almoço dela e levei ao quarto. Enquanto ela se alimentava, apontava para os objetos e fazia sinais improvisados, perguntando, curiosa. Eu respondia, nomeava, reforçava. O quarto parecia maior, mais vivo. Depois, Cecilia adormeceu com o urso de pelúcia apertado contra o peito.
Desci para almoçar.
Já passava de uma da tarde. Eu esperava encontrar a cozinha vazia, silenciosa, como de costume. Um lugar onde eu pudesse pensar sem testemunhas. Mas assim que entrei, vi Adriano.
Ele estava de pé ao lado da janela com um copo de suco na mão. A luz desenhava sombras duras no rosto dele. Parecia sóbrio, mas carregava uma tensão que não precisava de palavras para ser percebida.
— Boa tarde — disse, contida.
Ele assentiu, sem responder.
Servi-me em silêncio. O som do prato raspando na bancada soou alto demais. Sentei-me à mesa com a intenção clara de comer rápido e sair. Mas Adriano puxou a cadeira em frente à minha e se sentou.
— Como está a Cecilia? — perguntou. — Teve febre de novo?
— Não — respondi. — Ela está bem. Comeu, dormiu… aprendeu coisas novas.
Ele pareceu interessado e eu aproveitei a ocasião.
— A propósito — comecei tentando manter a voz firme —, o senhor mesmo pode ir ver como está sua filha.
Ele franziu o rosto.
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