Desci para o jantar quando a casa já estava envolta naquele silêncio morno que só a noite no interior sabe criar. O dia tinha sido longo, carregado de pequenas descobertas e pensamentos que não me largavam, e eu esperava encontrar a cozinha vazia ou, no máximo, Quitéria organizando as panelas. Mas, ao atravessar a porta da cozinha, encontrei Catarina sentada à mesa com Adriano.
Ela falava animada, gesticulando com as mãos, os olhos brilhando de entusiasmo. Adriano a escutava com o corpo inclinado para trás na cadeira, braços cruzados. Não era o Adriano duro e distante de sempre. Era um homem que, apesar de tudo, sabia ouvir a irmã.
— Marja! — Catarina me viu e abriu um sorriso largo, daqueles que chegam antes da voz. — Vem, senta aqui com a gente.
— Boa noite — respondi, puxando a cadeira com cuidado.
— Boa noite — Adriano disse, breve, sem me olhar diretamente, mas também sem hostilidade.
Sentei-me, tentando não interromper a dinâmica entre os dois. Catarina continuou a conversa como se eu sempre tivesse estado ali, contando histórias de infância: uma vez em que se perdeu no meio da plantação, outra em que ela caiu antes mesmo de subir no cavalo, porque Adriano não a havia instruído sobre o que fazer.
Ela ria, e Adriano balançava a cabeça, murmurando correções.
— Você sempre exagera — ele disse em dado momento. — Não foi bem assim.
— Foi sim — Catarina rebateu, rindo. — Você que não gosta de admitir que sempre foi teimoso.
Observei os dois em silêncio. Havia algo bonito naquela troca, algo que me fazia pensar em tudo o que eu não tivera: irmãos que brigam, que riem, que se conhecem por dentro. Adriano parecia menos pesado ali, menos carregado de sombras.
O jantar seguiu em tom leve. Catarina me fazia perguntas sobre Cecilia, sobre a fazenda, sobre como eu estava me adaptando. Adriano falava pouco, mas quando o fazia, Catarina escutava com atenção quase reverente.
Em determinado momento, Adriano se levantou da mesa.
— Vou subir — disse. — Preciso resolver umas coisas.
— Boa noite, irmão — Catarina falou com carinho.
O espaço que ele deixou atrás de si pareceu ecoar. Catarina acompanhou o irmão com o olhar até ele desaparecer no corredor, depois soltou um suspiro curto, quase imperceptível.
Antes que dissesse qualquer coisa, o celular dela vibrou sobre a mesa.
Ela olhou a tela, franziu levemente a testa e se levantou.
— Já volto — avisou, caminhando até a janela para atender.
Fiquei sentada, mexendo distraidamente no talher, tentando não ouvir. Mas o silêncio da casa tornava tudo mais nítido. Catarina falava baixo, a voz suave, carregada de intimidade. Eu não distinguia palavras completas, apenas o tom: ora carinhoso, ora explicativo, como quem tenta tranquilizar alguém à distância.
Ela ria de leve, depois ficava séria, depois ria outra vez. Havia uma familiaridade ali que não passava despercebida.
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