Acordei antes mesmo do sol atravessar completamente a janela, com o canto distante de um galo e o cheiro de café que já fazia parte do meu despertar. Levantei devagar, ainda com o corpo pesado do dia anterior, mas com a mente curiosamente alerta.
Depois do café da manhã, simples e farto, Catarina apareceu com uma cesta de palha no braço, animada como uma criança prestes a ganhar presente.
Vesti Cecilia com uma roupa leve e peguei as chaves do SUV que Adriano deixara sobre o aparador na noite anterior, sem dizer palavra. Era um gesto seco, mas estava carregado de significado.
— Vamos? — Catarina perguntou, já do lado de fora.
Assenti e sorri.
Enquanto seguíamos pela estrada de terra, com Cecilia no banco de trás abraçada à boneca e Catarina cantarolando baixinho, as imagens do outro dia voltaram com força: o rio brilhando sob o sol, a risada muda de Cecilia dentro d’água, o calor, a febre, o olhar duro de Adriano, o sermão que me fizera sentir pequena e irresponsável.
Quando estacionei à sombra das árvores próximas ao rio, senti o coração apertar por um momento. Estendi a toalha com cuidado, organizei as comidas, ajeitei a bolsa térmica. Naquele dia eu não entraria no rio, nem deixaria Cecilia entrar.
Catarina, ao contrário, não parecia carregar peso algum. Tirou o tênis, o vestido leve de malha, ficando apenas de maiô e se dirigiu para a água.
Fiquei observando enquanto ela nadava com naturalidade, afinal de contas ali era o seu habitat. Cecilia sentou-se ao meu lado na toalha, com a boneca e começou a brincar sozinha.
Permaneci debaixo da árvore, garantindo sombra para nós duas. Observava Catarina à distância, mas meus sentidos estavam todos voltados para a menina ao meu lado. Não queria ser alvo dos descontroles de Adriano novamente.
Quando Catarina voltou, pingando água, deitou-se de costas na grama, deixando o sol secar seus cabelos.
— Eu estava com tanta saudade disso — disse, fechando os olhos. — Da vida aqui. Do rio. Do silêncio.
Saí da toalha e fui um pouco mais perto de Catarina, mas ainda sob a sombra. Cecilia continuava entretida com a boneca, agora, um pouco distante de nós duas.
O silêncio que se seguiu foi confortável por alguns minutos, até que algo dentro de mim pediu voz. Eu vinha carregando aquela curiosidade havia dias. Talvez semanas. E ali, longe da casa, longe de Adriano, pareceu o momento certo.
— Catarina… — comecei, hesitante. — Como era a esposa do Adriano?


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