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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 24

Acordei antes mesmo do sol atravessar completamente a janela, com o canto distante de um galo e o cheiro de café que já fazia parte do meu despertar. Levantei devagar, ainda com o corpo pesado do dia anterior, mas com a mente curiosamente alerta.

Depois do café da manhã, simples e farto, Catarina apareceu com uma cesta de palha no braço, animada como uma criança prestes a ganhar presente.

Vesti Cecilia com uma roupa leve e peguei as chaves do SUV que Adriano deixara sobre o aparador na noite anterior, sem dizer palavra. Era um gesto seco, mas estava carregado de significado.

— Vamos? — Catarina perguntou, já do lado de fora.

Assenti e sorri.

Enquanto seguíamos pela estrada de terra, com Cecilia no banco de trás abraçada à boneca e Catarina cantarolando baixinho, as imagens do outro dia voltaram com força: o rio brilhando sob o sol, a risada muda de Cecilia dentro d’água, o calor, a febre, o olhar duro de Adriano, o sermão que me fizera sentir pequena e irresponsável.

Quando estacionei à sombra das árvores próximas ao rio, senti o coração apertar por um momento. Estendi a toalha com cuidado, organizei as comidas, ajeitei a bolsa térmica. Naquele dia eu não entraria no rio, nem deixaria Cecilia entrar.

Catarina, ao contrário, não parecia carregar peso algum. Tirou o tênis, o vestido leve de malha, ficando apenas de maiô e se dirigiu para a água.

Fiquei observando enquanto ela nadava com naturalidade, afinal de contas ali era o seu habitat. Cecilia sentou-se ao meu lado na toalha, com a boneca e começou a brincar sozinha.

Permaneci debaixo da árvore, garantindo sombra para nós duas. Observava Catarina à distância, mas meus sentidos estavam todos voltados para a menina ao meu lado. Não queria ser alvo dos descontroles de Adriano novamente.

Quando Catarina voltou, pingando água, deitou-se de costas na grama, deixando o sol secar seus cabelos.

— Eu estava com tanta saudade disso — disse, fechando os olhos. — Da vida aqui. Do rio. Do silêncio.

Saí da toalha e fui um pouco mais perto de Catarina, mas ainda sob a sombra. Cecilia continuava entretida com a boneca, agora, um pouco distante de nós duas.

O silêncio que se seguiu foi confortável por alguns minutos, até que algo dentro de mim pediu voz. Eu vinha carregando aquela curiosidade havia dias. Talvez semanas. E ali, longe da casa, longe de Adriano, pareceu o momento certo.

— Catarina… — comecei, hesitante. — Como era a esposa do Adriano?

Olhei para Cecilia, ali tão perto, tão inteira, brincando sem entender ainda que carregava uma história tão pesada no próprio corpo.

— Sinto muito — consegui dizer.

— Nós todos sofremos muito, na época. — Catarina falou. — Sei que cada um lida de um jeito com a dor. Mas Adriano… ele não sabe lidar. Não ainda.

Ficamos em silêncio depois disso. Um silêncio diferente, denso, respeitoso.

No final da tarde, arrumamos as coisas e voltamos para casa. O sol começava a se pôr, tingindo tudo de laranja e dourado. Cecilia cochilou no banco de trás, a cabeça pendendo para o lado, a boneca apertada contra o peito.

Enquanto dirigia, pensei em Adriano. No homem duro, no pai ausente, no viúvo que perdera tudo em um único instante. Pensei em mim mesma, em tudo que eu também perdera, em como a dor pode nos transformar em versões estranhas de nós mesmos.

Ao estacionar na frente da casa ainda estava inquieta com tudo o que ouvira de Catarina à beira do rio. As palavras dela ecoavam dentro de mim como um sino distante, insistente. Antonella. O nome agora tinha peso, forma, história.

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