A noite caiu silenciosa sobre a fazenda, trazendo consigo aquele frio leve que só aparece depois de um dia quente demais. Desci para o jantar com o corpo cansado.
Quando entrei na cozinha, percebi de imediato que algo estava diferente. Adriano estava sozinho à mesa. Catarina não estava ali, nem Quitéria, nem Mundico. Apenas ele, sentado na cabeceira, o prato quase intocado à frente, o olhar fixo em algum ponto indefinido da parede.
Hesitei por um segundo, mas me aproximei. O cheiro da comida ainda era convidativo, mas o ambiente estava carregado demais para abrir o apetite.
— Boa noite — disse, puxando a cadeira com cuidado.
— Soube que levou a Cecília ao rio novamente — ele falou, sem me olhar.
Sentei-me devagar. O tom dele já vinha afiado, como uma lâmina passada pela pedra.
— Sim — respondi.
— Achei que o passeio no rio fosse para você e Catarina.
Adriano levou o garfo à boca, mastigou lentamente, depois pousou o talher com força contida.
— Espero que tenha cuidado da minha filha melhor dessa vez.
Senti o sangue subir ao rosto. Não foi a frase em si — foi o jeito. O peso de uma acusação permanente, como se eu estivesse sempre prestes a errar.
— Se é isso que o senhor quer saber — disse, mantendo a voz firme apesar do incômodo —, eu não deixei Cecilia entrar no rio. Ficamos o tempo todo fora da água.
Ele me lançou um olhar rápido, duro, avaliador.
— Ainda assim, não acho prudente ficar levando uma criança pequena para o rio sem proteção. Ela é alérgica. Usou repelente nela?
— Usei, senhor. Mas com todo respeito — retruquei, sentindo a paciência se esgotar —, eu cuido dela o dia inteiro e sinto muito pelo que aconteceu no outro dia, mas não pode ficar me culpando eternamente.

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