A noite caiu silenciosa sobre a fazenda, trazendo consigo aquele frio leve que só aparece depois de um dia quente demais. Desci para o jantar com o corpo cansado.
Quando entrei na cozinha, percebi de imediato que algo estava diferente. Adriano estava sozinho à mesa. Catarina não estava ali, nem Quitéria, nem Mundico. Apenas ele, sentado na cabeceira, o prato quase intocado à frente, o olhar fixo em algum ponto indefinido da parede.
Hesitei por um segundo, mas me aproximei. O cheiro da comida ainda era convidativo, mas o ambiente estava carregado demais para abrir o apetite.
— Boa noite — disse, puxando a cadeira com cuidado.
— Soube que levou a Cecília ao rio novamente — ele falou, sem me olhar.
Sentei-me devagar. O tom dele já vinha afiado, como uma lâmina passada pela pedra.
— Sim — respondi.
— Achei que o passeio no rio fosse para você e Catarina.
Adriano levou o garfo à boca, mastigou lentamente, depois pousou o talher com força contida.
— Espero que tenha cuidado da minha filha melhor dessa vez.
Senti o sangue subir ao rosto. Não foi a frase em si — foi o jeito. O peso de uma acusação permanente, como se eu estivesse sempre prestes a errar.
— Se é isso que o senhor quer saber — disse, mantendo a voz firme apesar do incômodo —, eu não deixei Cecilia entrar no rio. Ficamos o tempo todo fora da água.
Ele me lançou um olhar rápido, duro, avaliador.
— Ainda assim, não acho prudente ficar levando uma criança pequena para o rio sem proteção. Ela é alérgica. Usou repelente nela?
— Usei, senhor. Mas com todo respeito — retruquei, sentindo a paciência se esgotar —, eu cuido dela o dia inteiro e sinto muito pelo que aconteceu no outro dia, mas não pode ficar me culpando eternamente.
“Perfeita. Maravilhosa. Amada”.
As palavras de Catarina voltaram com força. Como alguém poderia substituir uma mulher assim? Como ocupar um espaço que parecia mais um altar do que uma ausência? Se Antonella tivesse sido cruel, distante, falsa… talvez fosse mais fácil. Mas não. Ela era lembrada como alguém inteira, boa, quase intocável.
Senti um aperto no peito que não soube nomear. Não era ciúme. Era a consciência dura de uma impossibilidade. Nenhuma mulher pisaria naquela casa sem ser comparada a Antonella. Nenhuma presença feminina jamais ocuparia seu lugar. Qualquer mulher naquela casa seria apenas uma sombra pálida diante de uma memória como aquela.
E Adriano… ele não ajudava. Alimentava essa idolatria com o próprio silêncio, com a rigidez, com a incapacidade de seguir adiante. Talvez nem quisesse seguir. Talvez permanecer preso à dor fosse a forma que encontrara de continuar fiel a ela.
Suspirei, apoiando a testa no vidro frio da janela.
Ouvi passos no corredor e me afastei da janela, o coração dando um salto involuntário. Mas os passos seguiram adiante, afastando-se tropegamente. Era Adriano bêbado, indo para o quarto. Eu já conhecia o som dos seus passos.
Deitei-me devagar, puxando o lençol até o peito. O sono demorou a vir. Fiquei olhando para o teto escuro, pensando em como algumas dores se tornam monumentos. E como viver ao redor deles exige uma força que eu ainda não sabia se tinha.

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