Acordei com batidas fortes na porta do meu quarto. Eram pancadas secas e impacientes. Abri os olhos e percebi que o quarto ainda estava mergulhado numa penumbra azulada. Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo, porque meu corpo estava pesado e a cabeça lenta.
As batidas vieram de novo, mais fortes.
— Já vai! — respondi, a voz rouca.
Levantei-me tateando o chão frio. Abri a porta quase no impulso — e dei de cara com Adriano.
Ele estava parado ali, ereto, os braços rígidos ao longo do corpo, o maxilar tenso. O olhar que cravou em mim foi um pouco longo demais.
— Se vista e desça — disse, sem rodeios. — Preciso falar com você.
Demorei um segundo para reagir.
— O que foi? — perguntei, ainda meio atordoada. — Fiz alguma coisa errada? A Cecilia está bem?
— Você faz perguntas demais — ele respondeu, seco. — Não é nada com a minha filha. Desça logo. Nós vamos sair.
— Me dê só o tempo de me trocar. Já vou descer.
Arrogante, pensei, sentindo o incômodo familiar subir pelo peito. Sempre autoritário, como se eu fosse uma criança que precisava ser conduzida sem explicações.
Quando fiz menção de fechar a porta, ele avançou um passo e empurrou-a levemente com a mão, impedindo que se fechasse por completo.
— Da próxima vez que alguém bater na porta do seu quarto — disse, num tom baixo e firme —, pergunte quem é. E vista-se antes de abrir.
Virou as costas e saiu pelo corredor; os passos ecoando com rigidez. Fiquei ali, imóvel, com a mão ainda na maçaneta sem entender coisa alguma. Depois fui até o espelho grande da parede e fiquei totalmente ruborizada com o que vi.
Eu estava usando uma camiseta fina demais, totalmente transparente, que exibia os meus seios completamente, sem esconder nenhum detalhe. E também usava uma calcinha que mostrava tudo: meus pelos íntimos apareciam como se fossem desenhos no tecido fino. Era como se eu estivesse nua.
O calor subiu pelo meu rosto como um incêndio. Senti uma mistura de vergonha e desconforto difícil de nomear. Meu Deus!
O coração batia rápido em excesso. Não sabia onde colocar as mãos, nem o pensamento. Havia algo humilhante naquela situação e também algo que me deixava estranhamente inquieta. Não só pelo corpo exposto, mas pelo olhar dele. Não fora um olhar vulgar. Fora… contido demais.
Balancei a cabeça, tentando afastar qualquer interpretação que não fosse correta. Vesti-me às pressas: jeans, camiseta, sapatilhas. Desci as escadas e tomei um café rápido, em pé diante do balcão.
Encontrei Adriano já dentro do carro, o SUV ligado, o braço apoiado na janela aberta. Ele não olhou para mim quando entrei.
— Já avisei a Benedita para tomar conta da Cecilia — disse, enquanto engatava a marcha.
— E… onde nós vamos? — perguntei, tentando manter a voz neutra.
Ele suspirou, como se aquela pergunta fosse um peso adicional.
— Amanhã é o aniversário de Catarina. Vou comprar um presente. — Fez uma pausa breve, depois acrescentou: — Quero que você me ajude.
A surpresa me fez virar o rosto para encará-lo.
— Que tal isso? — perguntei?
Ele segurou a bolsa nas mãos, analisando-a como se fosse um objeto estranho.
— Você acha que ela vai gostar?
— Acho — respondi. — E mesmo que não goste, vai saber que você pensou nela.
Ele ficou em silêncio por um instante, depois assentiu.
— Vamos levar.
Enquanto o vendedor embalava o presente, senti algo mudar, muito sutilmente, entre nós. Não era proximidade. Era uma trégua.
Quando saímos da loja, o sol estava ainda mais forte. Caminhamos de volta para o carro em silêncio, mas não era o mesmo silêncio pesado de antes. Havia algo suspenso, indefinido.
Adriano ficou parado por um instante no meio da calçada. Em seguida passou a mão pela nuca, um gesto quase tímido, completamente diferente do homem ríspido da fazenda.
— Está com fome? — perguntou, sem me encarar diretamente. — Tem o restaurante de um amigo meu aqui perto.
A pergunta me pegou de surpresa.

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