— Está com fome? — Adriano me perguntou no meio da calçada.
Eu quase não acreditei no que ouvi. Não apenas pelo convite, mas pela forma como foi dito. Adriano não estava me dando ordem. Estava apenas... me perguntando algo.
— Estou — respondi, tentando disfarçar o sorriso que insistia em surgir.
Entramos no carro e rodamos poucas quadras até surgir um restaurante simples, de fachada antiga, com janelas grandes e cortinas claras. Assim que atravessamos a porta, um homem baixo, sorridente, de avental branco, veio ao nosso encontro.
— Adriano! — disse, abrindo os braços. — Quanto tempo!
— Augusto — respondeu Adriano, apertando-lhe a mão e abraçando-o ao mesmo tempo. — Essa é a Marja.
E depois, olhando para mim, falou:
— Eu e Augusto nos conhecemos desde a infância.
— Muito prazer. Seja bem-vinda — disse Augusto, olhando-me com curiosidade. — A casa é de vocês.
Nos sentamos perto da janela e fizemos os pedidos. O ambiente era acolhedor, cheiro de comida caseira, vozes baixas, talheres tilintando. Adriano parecia mais relaxado ali, como se aquele espaço lhe devolvesse uma versão antiga de si mesmo.
— O calor está demais — ele falou.
— Está sim — concordei.
— A especialidade aqui é frutos do mar. Você gosta?
— Gosto.
— Frutos do mar são os meus pratos preferidos: peixes, siri catado, caranguejo. Comeria todos os dias sem enjoar. — Adriano falou olhando o cardápio.
— Achei que fazendeiros gostassem de comer carne; muita carne. Por isso que a maioria são gordos.
Adriano riu com a minha observação. O sorriso dele era lindo; os dentes tão perfeitos! Era a primeira vez que ele ria quando falava comigo. Aquilo foi tão fofo!
— E você, do que gosta mais? — ele perguntou.
— Pizza, lasanha, essas coisas...
Nosso pedido chegou e enquanto comíamos, falamos de coisas banais. Adriano falou que o povoado ficava daquele jeito só nos finais de semana, dia de feira, mas que durante a semana era como uma cidade fantasma.
Houve um momento em que o assunto acabou e ele me olhou por tempo demais. Senti um calor estranho subir pela pele, uma consciência aguda do espaço entre nós. Fiquei tão nervosa que quase derrubei o copo de refrigerante.
Fiquei em silêncio, sentindo o peso daquela confissão. Adriano não era um homem que falava de perdas com facilidade.
— Catarina era pequena — ele acrescentou. — Depois que meu pai se foi, eu virei meio que o pai dela sem perceber. Diferença de 11 anos.
Olhou para mim então, os olhos escuros carregados de algo que não era apenas lembrança. Era vulnerabilidade.
Meu coração apertou. Quis tocar sua mão, dizer algo que o aliviasse. Mas não fiz. Apenas permaneci ali, presente.
O vento soprou, trazendo o cheiro de terra e água. Adriano se aproximou um pouco mais. Pude sentir o calor do corpo dele, a respiração pesada. Levantei o olhar. Nossos rostos estavam próximos demais. Senti o mundo desacelerar, como se aquele instante pudesse se estender indefinidamente. Havia algo ali. Uma tensão elétrica, silenciosa, perigosa.
Então ele se afastou abruptamente, levantando-se.
— Temos que ir — disse, seco, como se despertasse de um sonho ruim.
Levantei-me também, o coração ainda acelerado.
O caminho de volta até o carro foi silencioso. Diferente do silêncio pesado de antes, era um silêncio cheio de coisas não ditas.
Quando o carro voltou a se mover em direção à fazenda, percebi que todos os dias eu conhecia um pouco mais de Adriano e nunca parava de me surpreender.

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