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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 29

Catarina e eu seguimos à frente da trilha, os passos ritmados, as folhas secas estalando sob os tênis.

— Não deixa o Adriano te irritar — Catarina falou.

— Eu tento; nem sempre é fácil, mas vou levando por causa de Cecília.

— Cecília gosta de você. Antes ela não se aproximava de ninguém. — Catarina comentou.

— E com as outras babás, como ela era? — perguntei com curiosidade.

— Nunca houve “outras babás”.

— Não?! — perguntei surpresa. — E quem cuidou dela depois que a mãe morreu?

— Quitéria e Benedita se revezavam entre as tarefas da casa e os cuidados com Cecilia.

— Mas, por quê?

— Porque Adriano nunca deixou nenhum estranho entrar naquela casa. Ali só ficam os empregados de muito tempo, os que moram na vila.

Catarina me encarou e sorriu com malícia:

— Acho que ele viu algo diferente em você.

— Você está enganada. Adriano parece nem gostar de mim. Vive buscando erros em tudo que faço.

— Tenha paciência com ele. Adriano é hoje o que restou depois do acidente.

Em certo momento, ouvi uma risada atrás de nós. Catarina comentou:

— Pelo menos o Leon ainda tem senso de humor.

Olhei de relance para trás. Leon gesticulava enquanto falava, Adriano caminhava com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa

— Sabe — ela parou de repente. Eu parei também. — Desde sempre eu fui apaixonada pelo Leon.

— Desde sempre? — perguntei com cuidado.

— Desde menina. — Ela sorriu sem alegria. — Sabe aquela adolescente boba que se apaixona pelo melhor amigo do irmão?

Voltamos a caminhar, agora mais devagar.

— Eu cresci olhando para ele como se fosse um herói.

O caminho se estreitou. Passamos por um trecho de raízes grossas expostas. Catarina continuou:

— Mas Leon se casou. — Deu de ombros. — Eu sofri em silêncio. Achei que ia passar, mas não passou. Um dia ele e a mulher brigaram. Ela saiu de casa, voltou para a casa dos pais.

Eu escutava em silêncio, curiosa demais.

— Eu fui atrás dele e me entreguei. — Parou de novo, respirou. — Depois, a esposa dele voltou para casa, como se nada tivesse acontecido. Eu enlouqueci e contei para todo mundo que ele havia tirado a minha virgindade.

— E Adriano… — comecei.

— Adriano foi até a casa de Leon e deu uma surra nele. Para lavar a minha honra —Catarina fez aspas com os dedos.

— E depois?

— Depois eu fui embora. — Endireitou os ombros. — Assim que terminei o ensino médio e fiz dezoito anos, fui para a capital.

— E Leon?

— Ele me ligava o tempo todo; eu não atendia. Deixava mensagem; eu não respondia. Um dia, ele não me ligou mais.

Caminhamos mais um trecho em silêncio.

Fiz um resumo de tudo desde a morte da minha mãe. Não contei os detalhes sobre a tentativa de estupro por parte do meu padrasto. Só disse que tivemos um desentendimento e eu fugi dele.

Naquele momento a trilha se abria em uma clareira pequena. Me sentei num tronco caído. Catarina se sentou ao meu lado. Adriano e Leon surgiram na clareira. Leon sorria, despreocupado. Adriano parecia mais fechado.

— Tudo bem por aqui? — Leon perguntou.

— Tudo — Catarina respondeu rápido, levantando-se. — Só colocando o papo em dia.

Adriano lançou um olhar curioso sobre nós, mas não disse nada.

Seguimos juntos. Agora, os quatro. As conversas se misturavam. Catarina puxava assuntos leves, Leon acompanhava. Adriano falava pouco, mas observava tudo.

Em um momento em que fiquei um pouco para trás, Adriano se aproximou. Caminhamos lado a lado em silêncio.

— Está tudo bem? — perguntou ele, baixo.

— Está — respondi.

Voltamos a caminhar em silêncio e quando nossas mãos se tocaram, senti um tremor no corpo e não consegui me afastar. Mas Adriano sim. Ele deu um passo para o lado e deixou um grande espaço entre nós. Não sei por que aquilo me aborreceu.

Segui um pouco mais à frente. Adriano ficou atrás de mim, como um guarda. E naquele momento um espinho cortou a pele do meu braço.

— Aii! — gritei cobrindo o ferimento, tentando proteger o braço.

De repente Adriano adiantou o passo e me abraçou. Meu coração quase salta pela boca. Segui caminhando aninhada em seus braços, nervosa, sem sentir as minhas pernas.

Mas, assim que o caminho de plantas espinhentas passou, Adriano me soltou.

— Agora pode caminhar sozinha. O perigo já passou.

Nossa! Aquilo foi tão decepcionante!

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