Catarina e eu seguimos à frente da trilha, os passos ritmados, as folhas secas estalando sob os tênis.
— Não deixa o Adriano te irritar — Catarina falou.
— Eu tento; nem sempre é fácil, mas vou levando por causa de Cecília.
— Cecília gosta de você. Antes ela não se aproximava de ninguém. — Catarina comentou.
— E com as outras babás, como ela era? — perguntei com curiosidade.
— Nunca houve “outras babás”.
— Não?! — perguntei surpresa. — E quem cuidou dela depois que a mãe morreu?
— Quitéria e Benedita se revezavam entre as tarefas da casa e os cuidados com Cecilia.
— Mas, por quê?
— Porque Adriano nunca deixou nenhum estranho entrar naquela casa. Ali só ficam os empregados de muito tempo, os que moram na vila.
Catarina me encarou e sorriu com malícia:
— Acho que ele viu algo diferente em você.
— Você está enganada. Adriano parece nem gostar de mim. Vive buscando erros em tudo que faço.
— Tenha paciência com ele. Adriano é hoje o que restou depois do acidente.
Em certo momento, ouvi uma risada atrás de nós. Catarina comentou:
— Pelo menos o Leon ainda tem senso de humor.
Olhei de relance para trás. Leon gesticulava enquanto falava, Adriano caminhava com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa
— Sabe — ela parou de repente. Eu parei também. — Desde sempre eu fui apaixonada pelo Leon.
— Desde sempre? — perguntei com cuidado.
— Desde menina. — Ela sorriu sem alegria. — Sabe aquela adolescente boba que se apaixona pelo melhor amigo do irmão?
Voltamos a caminhar, agora mais devagar.
— Eu cresci olhando para ele como se fosse um herói.
O caminho se estreitou. Passamos por um trecho de raízes grossas expostas. Catarina continuou:
— Mas Leon se casou. — Deu de ombros. — Eu sofri em silêncio. Achei que ia passar, mas não passou. Um dia ele e a mulher brigaram. Ela saiu de casa, voltou para a casa dos pais.
Eu escutava em silêncio, curiosa demais.
— Eu fui atrás dele e me entreguei. — Parou de novo, respirou. — Depois, a esposa dele voltou para casa, como se nada tivesse acontecido. Eu enlouqueci e contei para todo mundo que ele havia tirado a minha virgindade.
— E Adriano… — comecei.
— Adriano foi até a casa de Leon e deu uma surra nele. Para lavar a minha honra —Catarina fez aspas com os dedos.
— E depois?
— Depois eu fui embora. — Endireitou os ombros. — Assim que terminei o ensino médio e fiz dezoito anos, fui para a capital.
— E Leon?
— Ele me ligava o tempo todo; eu não atendia. Deixava mensagem; eu não respondia. Um dia, ele não me ligou mais.
Caminhamos mais um trecho em silêncio.
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