Depois do beijo na cachoeira, não houve mais como fingir: eu estava completamente, loucamente, desesperadamente, apaixonada por Adriano.
Catarina havia partido para a capital muito cedo, quase de madrugada. Na noite anterior assim que chegamos da trilha, ela recebeu uma ligação e disse haver surgido uma emergência. Nos despedimos ali mesmo, antes de eu ir para o meu quarto.
Acordei na manhã seguinte um pouco mais tarde. Levantei-me devagar, com o corpo cansado e a cabeça em turbilhão. Fiz minha higiene matinal e desci para a cozinha com a esperança tola de encontrá-lo ali, sentado à mesa, com a mesma expressão fechada de sempre. Talvez me lançasse um olhar duro, talvez dissesse alguma frase atravessada. Eu já estava preparada.
Quitéria estava sozinha, mexendo uma panela no fogão, o cheiro de café fresco se espalhando pelo ar.
— Bom dia, Marja — disse ela, com aquele sorriso sereno que parecia conhecer todos os segredos da casa.
— Bom dia — respondi. Em seguida fiz a pergunta tentando soar casual.
— O patrão já desceu?
Quitéria nem precisou pensar.
— Ele não está. Saiu muito cedo.
Engoli a resposta com vontade de fazer perguntas que eu mesma já sabia que não deveriam ser feitas. Servi-me de café e um pedaço de pão, e fiquei olhando o pasto pela janela da cozinha.
Cecília apareceu pouco depois,
— Bom dia, minha flor. Você dormiu bem? — fiz um carinho com a mão no rosto dela.
Depois do café levei Cecilia de volta para o quarto. Estava penteando-a quando a porta se abriu devagar.
Benedita entrou com aquele jeito discreto que parecia não fazer barulho nem quando respirava. Parou perto da porta, as mãos cruzadas à frente do corpo, e me olhou com uma expressão séria demais para aquela hora do dia.
— Marja… — chamou baixo. — O patrão mandou avisar que quer falar com você. Agora.
Meu coração deu um salto dentro do peito. Senti como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dos meus pés.
— Agora? — perguntei, apenas para ganhar tempo.
Benedita assentiu.
— Ele está no escritório.
Forcei um sorriso para Cecília e ajeitei uma mecha de cabelo atrás da orelha dela.
— Fica com a Benedita, está bem? Já volto.
Ela concordou e eu sai do quarto às pressas.
Erro. A palavra ecoou dentro de mim, pesada, cruel. Meu peito começou a doer de um jeito físico, como se alguém estivesse apertando meu coração com força. Abri a boca para falar, mas nenhum som saiu.
— Você é muito nova — ele prosseguiu, num tom quase didático, como se estivesse explicando algo óbvio. — Precisa viver a vida que a sua idade exige. Conhecer pessoas, sair, errar…
Senti uma pontada aguda no peito. Não era só dor. Era humilhação. Eu estava sendo rejeitada.
— Eu não sou homem para você, Marja — completou.
Senti um mal-estar, enquanto um gosto amargo veio subindo pela minha garganta, me sufocando. Algo dentro de mim estava se quebrando, peça por peça.
Ele se levantou, deu a volta na mesa, mas não se aproximou.
— Era isso o que eu tinha para dizer— falou, sem olhar para mim. — Pode ir agora.
Levantei-me com dificuldade, como se minhas pernas não me pertencessem mais e me dirigi para a porta. Quando toquei na maçaneta, minhas mãos estavam frias, insensíveis. Porém, senti que deveria dizer algo antes de sair. Então, me virei para Adriano e disse:
— Não se preocupe, senhor. O que aconteceu também não significou nada para mim.
Saí do escritório e fechei a porta atrás de mim. Só então o choro veio com força, não contido. Um choro mudo, desesperado, que fazia meu peito subir e descer rápido demais.
Subi as escadas quase sem enxergar, andando com cuidado, para ninguém me ver, para não haver testemunhas da minha dor.

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