Entrar Via

A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 33

Os dias começaram a escorrer uns dentro dos outros, iguais e silenciosos, como se a fazenda tivesse decidido me poupar de qualquer sobressalto. Adriano simplesmente desapareceu da minha rotina. Eu não o via mais pela manhã, não o encontrava à noite, não ouvia o som dos passos firmes no corredor nem a voz ríspida atravessando a casa.

Mundico e Quitéria falavam dele em frases soltas, enquanto o café passava ou enquanto a louça era lavada.

— O patrão anda que não para — dizia Mundico, coçando a barba. — Reunião pra cá, vistoria pra lá…

— É época difícil — completava Quitéria. — Muito problema pra resolver.

Eu fingia não ouvir. Ou melhor, ouvia como quem escuta o vento passando pelas árvores: sem reagir, sem me mover. Por dentro, no entanto, cada menção ao nome dele ainda causava um pequeno estremecimento, uma lembrança insistente da cachoeira, do beijo, da rejeição fria e definitiva.

À noite, quando a casa ficava quieta, eu sentia a ausência de Adriano como um fantasma discreto. Não havia mais tensão nos corredores, nem discussões veladas, nem aquele clima pesado que ele trazia consigo.

***

E naquela noite, depois que Cecilia dormiu, fiquei mais um tempo no quarto dela. O silêncio ali era diferente do resto da casa, como se as paredes guardassem uma calma própria. Organizei alguns livros, alinhei os lápis de cor dentro da caixa, dobrei com cuidado a manta que sempre escorregava para o chão durante a noite.

Quando terminei, sentei na beira da cama de Cecília por alguns segundos. Meus ombros pesavam, as pernas doíam, e meu coração parecia ter corrido uma maratona invisível. Levantei-me e fui até a porta. Girei a maçaneta com cuidado, tentando não fazer barulho e saí para o corredor.

Foi então que vi Adriano.

Ele acabava de subir as escadas e estava parado no início do corredor. A luz fraca iluminava apenas parte do rosto dele, criando sombras duras que acentuavam ainda mais sua expressão fechada. Na mão direita, pendendo de maneira descuidada, estava uma garrafa de uísque quase vazia.

Ele estava bêbado.

Reconheci isso não só pelo modo como se apoiava no corrimão, mas pela aura pesada que parecia envolvê-lo, como se carregasse um cansaço antigo, daqueles que não se curam com sono.

Nossos olhares se encontraram, e nenhuma palavra se fez necessária. Tudo o que precisava ser dito — e tudo o que jamais seria — estava ali, suspenso naquele espaço estreito entre nós. Meu coração disparou de um jeito quase doloroso, como se tentasse escapar do peito. Senti o sangue subir ao rosto, e minhas mãos ficaram frias.

Era a primeira vez que eu ficava diante dele desde o escritório. Desde as palavras que me rasgaram por dentro. Desde o momento em que ele colocou uma linha definitiva entre nós, como quem fecha uma porta sem olhar para trás.

Caminhei até o meu quarto como se estivesse atravessando um campo minado e chorei. Chorei muito.

Eu sabia o que aquilo significava.

Aquelas noites de bebedeira eram o momento em que Antonella estava mais presente na vida de Adriano.

Quando o passado se impunha com tanta força que não deixava espaço para mais nada — nem para o presente. Era quando ele mais sofria por ela.

Percebi, com uma clareza dolorosa, que eu não estava lutando apenas contra um amor impossível. Eu estava tentando existir num espaço que nunca seria meu.

E amar Adriano significava aceitar que eu sempre estaria do lado de fora. Assistindo. Esperando. Sofrendo.

E, mesmo assim, meu coração teimava em bater por ele.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO