Na manhã seguinte bem cedo, a médica deu alta para Cecília. Disse ser apenas uma virose e que eu ficasse de olho nela; caso a febre voltasse que retornasse com ela para o hospital.
Arrumei as poucas coisas, coloquei a bolsa no ombro e peguei Cecília no colo. Caminhei pelo corredor do hospital sentindo o peso de tudo o que aquela noite tinha significado.
Quando empurrei a porta de saída, a claridade da manhã me fez piscar. Dei alguns passos para fora, ajustando Cecília nos braços, pensando apenas em levá-la para casa, dar os remédios, colocá-la na cama, protegê-la do mundo pelo resto do dia.
Foi então que eu o vi. Adriano estava ali, parado próximo à entrada do hospital, encostado no carro. O corpo alto, os ombros tensos, o rosto marcado por cansaço e algo mais profundo, difícil de definir. Não sei se ele tinha acabado de chegar ou se já estava ali há algum tempo — eu não saberia dizer.
Naquele momento, senti algo endurecer dentro de mim. Foi um fechamento imediato, como uma porta que se b**e por dentro. Meu rosto reagiu antes mesmo que eu pudesse controlar. Fechei a cara, o maxilar travou, e a pergunta martelou com tanta força na minha cabeça que parecia ecoar no ambiente inteiro:
O que justifica um pai não ter ido ficar com a filha no hospital?
Ele deu um passo na nossa direção, e eu desviei o olhar por um segundo, apenas o suficiente para não permitir que aquele encontro de olhos quebrasse a muralha que eu acabara de erguer.
Sem dizer nada, caminhei até o carro, carregando Cecilia no colo. Adriano abriu a porta traseira rapidamente, como se quisesse compensar com gestos aquilo que não fez com presença. Coloquei Cecília no banco, ajeitei o cinto com cuidado, conferi duas vezes se estava confortável. Ela segurou minha mão por alguns segundos, apertando de leve, como se dissesse sem palavras que confiava em mim.
Voltei para o banco da frente e me sentei ao lado de Adriano. O silêncio entre nós era espesso, quase palpável. Ele ligou o carro, mas não saiu imediatamente. Esperava algo. Um comentário, talvez. Uma explicação.
— Pare na farmácia, por favor — disse eu, a voz seca, sem olhar para ele. — Precisa comprar os medicamentos de Cecília.
Ele assentiu com a cabeça, sem discutir.
— A receita — pediu, estendendo a mão.
Entreguei o papel dobrado, ainda quente do bolso do meu casaco. Adriano pegou, colocou no painel e deu partida. Andamos uns cinquenta metros apenas. O hospital ainda estava no campo de visão quando ele estacionou em frente à farmácia. Desceu do carro com a receita na mão, e foi nesse instante que eu realmente o observei e percebi o que estava errado.
O jeito de caminhar. Os ombros um pouco mais curvados, o passo pesado, a cabeça ligeiramente baixa. Aquilo não era cansaço. Era ressaca. Eu já reconhecia os sinais. O álcool ainda estava nele, impregnado nos movimentos, no atraso mínimo entre um passo e outro. Por isso ele não foi ver a filha no hospital.
Enquanto eu passava a noite inteira sentada numa cadeira dura, com medo de perder sua filha, você estava bebendo, pensei. Bebendo e pensando nela. Sempre nela.
Adriano entrou na farmácia, e eu fiquei observando através do vidro. Ele conversava com o atendente, apontava para a receita, passava a mão pelos cabelos como fazia quando estava tenso. Por um momento, quase senti pena. Quase.


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