No corredor, logo depois que Adriano encostou a porta do quarto de Cecília e se virou para mim, o silêncio pesou por um segundo apenas. Um segundo longo demais, suficiente para tudo o que eu vinha engolindo há dias subir de uma vez só. Quando ele perguntou, com aquela voz contida e impaciente — “O que foi?” — algo dentro de mim se rompeu. Eu me armei e me preparei. Mesmo assim, procurei falar baixo para não acordar a menina.
— O que foi? — repeti, incrédula, a voz já tremendo. — Eu não sei qual é a sua ideia de ser pai, mas posso lhe dizer, senhor, que o que você fez ontem… ou melhor, o que você não fez, foi absolutamente desumano!
As palavras saíram mais enfáticas do que eu pretendia. Meu peito subia e descia rápido, como se eu tivesse corrido quilômetros. Adriano endureceu o maxilar imediatamente. O olhar escureceu.
— Vai me dar lição de moral agora? — ele rebateu, ríspido. — Vai me dizer como eu devo criar a minha filha?
Aquilo foi como jogar gasolina no fogo.
— Criar? — soltei uma risada curta, amarga, que mais parecia um soluço. — Você chama isso de criar? Porque, do lugar onde estou, o que eu vejo é um homem que se esconde atrás do trabalho, da bebida e do silêncio para não encarar a própria filha!
Ele deu um passo à frente, ameaçador. Eu não recuei, a voz saindo embargada, mas dando o recado.
— Você não brinca com a Cecília — continuei sentindo a voz falhar, mas forçando cada palavra a sair. — Não a leva para passear, não se senta no chão para ouvir o que ela quer dizer do jeito dela. Você não pergunta como foi o dia dela, ou do que ela tem medo. Você simplesmente… ignora.
— Melhor a gente não ter essa conversa — Adriano me fulminou com os olhos.
Eu continuei como se não tivesse ouvido as suas palavras:
— Eu vejo isso todos os dias. Eu estou lá quando ela acorda assustada, quando passa mal, quando tenta chamar a sua atenção e você não percebe. Eu estou presente quando ela dorme segurando a minha mão porque não tem coragem de chamar pelo pai!
Adriano respirou fundo, as narinas inflando. Parecia lutar contra algo dentro dele.


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