Desci para o café naquela manhã com o coração apertado e um pedido silencioso martelando dentro de mim: que eu não encontre Adriano.
Cada degrau parecia um teste de resistência. Eu ainda sentia o eco das palavras dele no ouvido, na cabeça; elas estavam por todos os lugares do meu corpo. Quando cheguei à cozinha e a encontrei vazia, soltei o ar sentindo um grande alívio.
O cheiro forte do pó recém passado se espalhou pelo ambiente amplo, misturando-se ao som da fazenda acordando: galinhas cacarejando, o mugido de algum boi mais próximo, passos de empregados chegando.
Sentei-me à mesa grande sozinha, e comi pouco. O pão parecia seco demais, o café amargo demais. Tudo estava assim desde a noite anterior: excessivo.
Evitei pensar e tentei agir normalmente para me acalmar por dentro. Depois do desjejum, senti uma necessidade muito forte de sair do casarão. Aquelas paredes carregavam memórias que não eram minhas, mas que agora pareciam pesar sobre os meus ombros.
Caminhei sem rumo definido, seguindo uma trilha conhecida que levava aos campos mais abertos da fazenda. O verde se estendia até onde a vista alcançava. O sol da manhã iluminava tudo com uma suavidade enganosa, como se o mundo fosse simples.
Parei perto da cerca de madeira, apoiando os braços no tronco áspero, e fiquei observando os cavalos ao longe. Eram belos, fortes, livres. Um deles galopava com elegância, crina ao vento, como se nada pudesse alcançá-lo. Senti inveja daquela liberdade instintiva, daquele não precisar explicar sentimentos nem justificar dores.
Naquele momento um carro se aproximava devagar. Virei-me um pouco apreensiva e vi o automóvel parar a alguns metros. Leon desceu. Usava jeans, camisa clara e aquele jeito calmo que sempre parecia contrastar com a tensão constante daquela casa. Caminhou até mim sem pressa.
— Bom dia, Marja — disse, a voz baixa, quase cuidadosa.
— Bom dia — respondi, sem conseguir sorrir de verdade.
Ele ficou ao meu lado, também olhando para os cavalos por alguns segundos. Depois, me encarou de lado.
— O dia nem começou e você parece triste.
Neguei com a cabeça quase automaticamente.
— Não estou triste. É impressão sua.
Leon suspirou, cruzando os braços.
— Você pode até dizer isso, mas seu rosto está dizendo outra coisa. Parece que seu dia não está começando bem.
— É — confirmei, olhando novamente para os cavalos para não o encarar. Estava me sentindo péssima. — Ele deixou isso bem claro.
Leon me observou por alguns segundos em silêncio. Então, com um gesto inesperado, aproximou-se um pouco mais e segurou meu rosto com as duas mãos, com cuidado, como quem teme machucar algo frágil demais.
— Escuta — disse, sério, mas gentil. — Se você quer mesmo ficar, se gosta da pequena, precisa entender uma coisa: seja neutra e apenas faça o seu trabalho.
Engoli em seco. Leon prosseguiu:
— Às vezes o Adriano pode ser… cruel.
A frase doeu, pois me trouxe de volta as palavras duras e insensíveis de Adriano.
— Não porque ele seja mau — Leon continuou —, mas por causa da vida que ele teve, da forma como foi criado.
Fiquei confusa. Olhei para ele, tentando decifrar o que queria dizer.

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