Naquele momento Leon me deixou confusa. Eu que já estava achando que conhecia todas as manias e paranoias de Adriano me peguei curiosa. Do que Leon estava falando? Parecia que a vida de Adriano era feita de mistérios sombrios escondidos em buracos e quanto mais a gente cavava, mais coisa encontrava.
— A vida que ele teve? Não estou entendendo — perguntei confusa.
Leon assentiu lentamente.
— Você acha que conhece o Adriano porque sabe sobre o que aconteceu com a Antonella e o bebê — disse. — Mas aquilo foi só a ponta de um iceberg para ele ser o que é hoje; para ele se destruir como está fazendo.
Meu estômago revirou. Parecia que tudo que dizia respeito a Adriano, vinha com dores.
— Como assim? — perguntei, cheia de curiosidade.
Ele respirou profundamente, como se estivesse abrindo uma porta que costumava manter fechada.
— Se você acha que ele bebe muito… — Leon fez uma pausa — você não faz ideia da verdade.
Senti um frio estranho percorrer minha espinha, enquanto ouvia Leon falar.
— O que aconteceu com a Antonella e o bebê foi só um gatilho para levar Adriano por esse caminho tenebroso que ele vem seguindo — ele continuou. — O Adriano já bebia muito antes disso.
— Antes? — repeti, quase num sussurro.
— Muito antes — confirmou. — Ele começou a beber aos doze anos.
Meu coração quase parou.
Abri a boca para responder, mas o som de outro carro se aproximando nos interrompeu.
Meu coração disparou antes mesmo de vê-lo. Era a picape nova de Adriano. Ele estacionou a uma certa distância. Desceu do carro com o semblante fechado de sempre. Os olhos passaram rapidamente por nós dois juntos perto da cerca. Foi um olhar rápido, mas cortante. Não disse nada. Nenhum bom dia. Nenhuma palavra.
Leon se afastou de mim quase instintivamente e caminhou até ele. Os dois trocaram algumas palavras em tom baixo, que não consegui ouvir. Vi apenas gestos contidos, expressões tensas. Depois, começaram a se afastar juntos, andando em direção oposta à minha.
Fiquei ali, sozinha novamente. Meu coração martelava no peito com força, confuso demais para acompanhar meus pensamentos. Eu tinha vindo para a fazenda querendo fugir dos meus traumas, mas agora parecia ter entrado em uma história ainda mais cheia de feridas abertas.
Olhei mais uma vez para os cavalos, tentando encontrar alguma imagem que me levasse para outros pensamentos. Mas as palavras de Leon fixaram coisas na minha cabeça como uma cena de filme que não se apaga mesmo depois que termina. Nada ali era simples.
E a vida de Adriano tinha sido feita de tragédias: uma após a outra.

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