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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 40

Voltei para dentro do casarão como quem atravessa uma fronteira invisível. A conversa com Leon ecoava dentro da minha cabeça, repetindo-se em fragmentos desconexos: doze anos, o pai, a bebida. Adriano tinha fantasmas demais — e eu começava a entender que alguns deles eram antigos e profundos.

Subi as escadas e entrei no quarto de Cecilia. Sentei-me na beira da cama e passei os dedos de leve pelos cabelos cacheados dela. Cecília se mexeu e abriu os olhos lentamente. Quando me viu, sorriu.

— Bom dia, minha princesa! — sussurrei, tentando devolver o sorriso.

Naquele dia fiz tudo no automático e mais tarde, enquanto Cecília tentava formar palavras simples, juntando letras com uma concentração admirável, eu simplesmente… não estava ali. Meu corpo estava presente, minhas mãos apontavam, ajudavam, incentivavam, mas minha mente vagava longe, perdida em pensamentos que eu não conseguia ordenar.

Eu pensava em Adriano.

Pensava nele menino, com um copo nas mãos pequenas. Pensava nele adulto, duro, ríspido, escondendo tudo atrás de uma armadura de silêncio e bebida. Pensava na maneira como ele tinha me olhado no corredor dias antes, bêbado, ausente, atravessando-me como se eu fosse invisível. Pensava nas palavras dele, afiadas, colocando-me no meu “lugar”.

E, ainda assim, eu me preocupava com ele.

Cecília puxou minha manga, chamando minha atenção. Apontou para o caderno, orgulhosa de uma palavra que tinha conseguido formar quase sozinha. Sorri para ela, dessa vez com mais esforço, e a abracei.

— Você está indo muito bem— eu disse com sinceridade

Mas por dentro eu estava longe. Muito longe.

O dia passou assim, arrastado, pesado. Quando a noite caiu, coloquei Cecília para dormir mais cedo, depois, levantei-me em silêncio e fui para o meu quarto.

Entrei no banheiro, tirei a roupa e me permitir sentir no corpo a delícia do banho vindo de uma ducha forte e fria. Quando terminei, vesti uma camisola confortável com o corpo ainda molhado, sentei na cama e fiquei encarando o celular por um tempo.

Havia dias que eu evitava aquela ligação. Talvez por medo de saber coisas que poderiam me assombrar, tirar meu sono.

Mas naquela noite, eu precisava ouvir uma voz conhecida. Precisava de Jana.

Tomei coragem e liguei para o número que sabia de cor. Chamou uma, duas, três vezes.

— Alô? — ouvi a voz ansiosa de Jana do outro lado da linha.

— Jana! — falei, sentindo um nó imediato na garganta.

— Marja? — a voz dela veio tensa, quase incrédula. — Oh, Marja, é você?

— Oi, amiga. Sim, sou eu mesma.

— Meu Deus… — Jana suspirou do outro lado. — Onde você se enfiou, garota? Você sumiu. Troca de número e demora demais de ligar. Fiquei aqui roendo as unhas. Todos os dias aguardava sua ligação.

— Eu sei — falei, com culpa. — Me desculpa. As coisas… aconteceram muito rápido.

— Eu fiquei apavorada — ela continuou. — Depois da última conversa, você desapareceu. Está tudo bem aí na fazenda?

— Está, sim — procurei tranquilizá-la. — E por aí, como estão as coisas?

Jana parou de repente. Reinou um silêncio esmagador e meu corpo inteiro enrijeceu.

— Fala logo, Jana. O que foi?

— Fui na casa do seu padrasto — ela finalmente desabafou.

Capítulo- 40 1

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