Quando acordei, não senti como sempre a beleza da manhã. Naquele dia, tudo parecia cinza, depois da conversa que tivera com Jana ao telefone.
Depois do café, notei que Cecília também estava mais introspectiva. Não quis sair do quarto, nem insistiu nos passeios de sempre. Preferiu ficar sentada no chão, com os lápis de cor espalhados ao redor, desenhando com uma concentração silenciosa que eu já conhecia bem.
Beijei-lhe a testa, disse que estaria por perto, e a deixei naquele pequeno mundo seguro que ela mesma criava quando precisava.
Saí sozinha. Caminhei sem pressa pela fazenda, sentindo o orvalho ainda fresco sob os pés e o cheiro de terra molhada que sempre me acalmava. As vozes da casa ficaram para trás, e o som dominante passou a ser o dos insetos, do vento nas folhas, de algum pássaro mais distante.
Sem perceber, meus passos me levaram até a árvore de raiz grande, aquela que parecia fincar-se no chão como se quisesse segurar o mundo no lugar. Sentei-me sobre a raiz larga e retorcida, encostei as costas no tronco e fechei os olhos. A brisa da manhã tocava meu rosto com delicadeza, levantando alguns fios de cabelo, trazendo consigo um cheiro leve de campo aberto. Por alguns minutos, me esforcei para não pensar em nada, nem em medos antigos, nem no futuro.
De repente ouvi um galope.
Abri os olhos no mesmo instante. O som vinha se aproximando, firme, ritmado. Levantei o olhar a tempo de ver Adriano surgir montado no cavalo, a postura ereta, segura. Ele desceu com facilidade, como quem faz aquilo desde sempre, e amarrou o animal ali perto. Só então se aproximou de mim.
Havia algo diferente nele. Não havia sombra nos olhos, nem o peso da ressaca, nem aquele cheiro amargo de álcool que eu já aprendera a reconhecer. Ele parecia… limpo. Presente. Inteiro.
— Você percebeu que está longe de casa? — perguntou, a voz um pouco alta por causa do vento.
Demorei um segundo para responder.
— Percebi — disse apenas.
Ficamos alguns segundos em silêncio, um de frente para o outro, separados por poucos passos. O vento continuava passando entre nós, quase um terceiro elemento naquela conversa mínima.
— Cecília ficou em casa? — ele perguntou.
— Ficou. Mas não se preocupe, pedi a Benedita que ficasse de olho nela.
— Ela gosta de ficar sozinha — murmurou.

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