Quando Adriano me segurou em seus braços, o tempo pareceu parar ali. Não havia som algum além do vento e do meu próprio coração, batendo alto demais dentro do peito. O rosto dele estava a centímetros do meu. Os olhos escuros, atentos, intensos.
Por um instante, tive certeza de que ele ia me beijar. Vi a intenção passar pelo olhar dele, vi o conflito, vi o desejo contido, quase doloroso. Meus lábios se entreabriram sem que eu percebesse, a respiração curta, o corpo inteiro respondendo àquele silêncio carregado.
Mas o beijo não veio. Adriano piscou, como se acordasse de um transe, e me soltou. Deu um passo para trás, recompondo a distância, a postura e o controle. Em seguida, caminhou até o cavalo, segurou as rédeas e voltou-se para mim.
— Suba — disse. — Vamos para casa.
Hesitei apenas um segundo antes de aceitar a mão que ele estendeu. Subi na garupa, sentando-me atrás dele. Minhas mãos procuraram apoio, tocando-lhe a cintura com cuidado. O cavalo começou a andar, e eu senti o movimento ritmado, o corpo dele firme à minha frente e a proximidade tão inevitável.
Seguimos assim até a casa grande, em silêncio. O caminho pareceu mais curto do que nunca. Quando descemos, ele me ajudou novamente, as mãos firmes, corretas, rápidas demais. Amarrou o cavalo e caminhou comigo até a frente da casa.
— Marja… — ele me chamou, usando meu nome de um jeito que fez meu estômago se contrair.
Eu me virei, esperando. Ele abriu a boca para dizer algo; vi claramente que havia mais ali, algo que ele finalmente iria se permitir.
— Adriano!! — A voz de Mundico surgiu apressada. — Preciso do senhor agora. É coisa séria lá no pasto de baixo.
Adriano fechou os olhos por um segundo. Depois respondeu:
— Já vou.
Benedita saiu. Coloquei a caixa sobre a cama e comecei a rasgar os papeis. E lá estava o laptop que eu havia comprado pela internet. De tão feliz que eu estava comecei a rodopiar com o laptop pelo quarto como se estivesse dançando com ele. Há tempos que não me sentia tão empolgada!
Agora continuaria os meus estudos online. Estava no último ano do curso de Pedagogia, iria me formar e fazer uma pós-graduação em Psicopedagogia ou Educação Especial e Inclusiva. Estudaria no quarto junto com Cecilia. Enquanto ela estivesse aprendendo as primeiras letras, eu também estaria estudando para fazer as provas finais. E quem sabe um dia realizaria o meu sonho de ter a minha própria escola.
Pensei em minha mãe. Ela ficaria feliz! Lembrei-me dos seus olhos brilhando quando eu falava que ainda seria dona de uma escola para crianças especiais. Ela me apoiava, me incentivava, fazia planos comigo.
Foi ela que conseguiu o primeiro emprego para mim na escola, quando eu tinha dezessete anos e estava concluindo e ensino médio. Uma das clientes dela da faxina, era diretora em uma escola infantil. Então um dia sem me falar nada minha mãe conseguiu com ela uma vaga para mim. Naquele dia eu percebi o quanto a minha mãe me amava.
De volta ao presente, me sentei com o laptop no colo e comecei a configurá-lo: conectei o Wi-Fi, criei uma conta e instalei os programas essenciais. Em seguida fui tomar banho, cantarolando.

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