A estrada de volta para a fazenda parecia mais longa do que nunca. O SUV avançava pela rodovia como se também estivesse cansado, e eu mantinha o olhar fixo na paisagem que passava rápido demais pela janela. O mar tinha ficado para trás, junto com os momentos bons que tivemos.
Adriano dirigia com as duas mãos firmes no volante. Não parecia de ressaca. Não parecia sequer cansado. Estava só… fechado. O tipo de fechamento que eu já tinha aprendido a reconhecer: quando ele se recolhia para dentro de si e ninguém mais tinha acesso.
Eu não havia dito nada desde que entramos no carro. Nem quando ele ligou o motor, nem mesmo quando deixamos a casa de vidro para trás.
O silêncio não era confortável dessa vez.
Percebi quando ele me olhou de lado pela primeira vez. Um olhar rápido, mas atento o suficiente para notar a ausência das minhas palavras. Continuei encarando a janela, os campos, os morros distantes, qualquer coisa que não fosse o rosto dele.
— O que você tem? — ele perguntou de um jeito, quebrando o silêncio, mas ao mesmo tempo como se já soubesse a resposta.
Minha primeira reação foi responder com honestidade. Dizer que estava ferida. Que aquele nome — Antonella — tinha atravessado algo em mim. Que eu não tinha dormido direito. Que me sentia pequena, deslocada, fora de lugar.
Mas nenhuma dessas verdades me parecia segura ali, naquele carro, naquela estrada, naquela posição desigual entre nós. Engoli tudo.
— Nada — respondi, sem virar o rosto.
Ele ficou alguns segundos em silêncio. Senti o peso do olhar dele sobre mim outra vez, mais demorado agora.
— Está chateada porque eu bebi?
Olhei para ele e respondi:
— Acho que já sabe a resposta.
Talvez ele quisesse falar do dia anterior; talvez quisesse se desculpar por ter me deixado sozinha o dia inteiro e ter chegado bêbado. Mas ele nunca iria se desculpar por amar Antonella. E eu não queria entrar nessa conversa. Não podia. Porque eu sabia qual era o meu lugar. Adriano era meu patrão. Eu era a babá da filha dele e não tinha qualquer direito de cobrar, exigir, ou sequer esperar explicações.
O silêncio voltou a se instalar, denso, incômodo. Depois de alguns quilômetros, ele respirou fundo e perguntou:
— Você está arrependida?
Aquilo me fez virar o rosto para ele, finalmente. Não por raiva, mas por surpresa. A pergunta não vinha carregada de ironia. Havia algo quase vulnerável ali, escondido sob a voz firme.
Voltei a olhar para frente, para a estrada.
— Eu não posso esquecer que você é o meu patrão — respondi, com cuidado, escolhendo cada palavra como quem pisa em terreno instável.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO