Enquanto Adriano saltava do carro, observei que ele voltara a ser o mesmo de antes: frio, duro, objetivo. Saí do SUV olhando a fazenda ao meu redor, como se aquilo fosse um lembrete de realidade. Enquanto caminhávamos lado a lado até a entrada, observei que o casarão estava exatamente como sempre: imponente, misterioso, cheio de ecos.
Quando pisamos na varanda do casarão, a porta da frente se abriu de supetão.
— Marja! — Quitéria foi a primeira a aparecer, os olhos arregalados, as mãos levadas ao peito. — Ave-Maria, menina… que bom que você chegou!
Em dois passos estava à minha frente, me segurando pelos braços, como se precisasse confirmar que eu não era um vulto, nem uma lembrança.
— Sou eu, Quitéria — respondi, sorrindo fraco. — Voltei.
— Voltou viva, que é o mais importante! — ela retrucou, me puxando para um abraço apertado. — Você não sabe o susto que deu na gente.
Senti o cheiro conhecido do sabão de coco no avental dela, e aquele contato simples, quase materno, fez algo se desfazer dentro de mim. Eu não estava preparada para ser recebida assim.
Quitéria agora era mais amiga e companheira. Estava muito diferente do primeiro dia em que nos conhecemos, quando se mostrou cismada e desconfiada ao extremo.
Mundico veio logo atrás, tirando o chapéu num gesto respeitoso.
— A menina fez a fazenda inteira rezar — disse ele, sério. — Cobra não é brincadeira, não. Mas graças a Deus que Nosso Senhor Jesus Cristo poupou sua vida.
— Foi por pouco — acrescentei, tentando manter a voz firme. — Mas estou bem agora.
Benedita apareceu por último, silenciosa como sempre. Aproximou-se devagar, tocou de leve meu braço, como quem testa uma realidade improvável.
— Que bom ver você de pé — murmurou. — Cecília sentiu sua falta.
Meu coração deu um aperto imediato.
— Ela está bem? — perguntei.
— Está, sim — respondeu Benedita. — Hoje ficou mais quietinha que o normal, mas comeu direitinho. Agora está dormindo.
Respirei aliviada.
Durante todo esse tempo, Adriano permaneceu alguns passos atrás, observando a cena com o semblante fechado. Quando Quitéria finalmente se deu conta da presença dele, mudou o tom, como se um interruptor invisível tivesse sido acionado.
— E o patrão… — disse ela, ajeitando o avental. — O senhor deve estar exausto.
— Estou — respondeu ele, curto, objetivo. — Vou subir.
Não houve despedida, nem explicação. Ele simplesmente virou-se e entrou no casarão, os passos firmes ecoando no piso, até desaparecer caminhando em direção ao escritório.
Fiquei olhando por um instante, seguindo-o com os olhos. Aquela ausência repentina doía mais do que qualquer palavra.
Quitéria me conduziu até a sala, falando sem parar: contou das rezas, das noites em claro, do medo de que eu não voltasse. Mundico completava com detalhes exagerados. Benedita ouvia, às vezes acrescentava uma frase curta.
Sentei-me por insistência deles, aceitei um chá, mesmo sem vontade. O corpo pedia descanso, mas a cabeça estava inquieta demais.

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