Eu estava sentada à mesa da cozinha, soprando o café quente antes do primeiro gole, quando a rotina da casa começou a se mover ao meu redor como um organismo vivo. Quitéria, como sempre, parecia comandar tudo ao mesmo tempo: mexia uma panela no fogão, provava o tempero com a ponta da colher, abria o forno, fechava com o pé, reclamava do calor e, ainda assim, parecia perfeitamente em paz naquele caos doméstico que só ela sabia organizar.
O cheiro de café fresco misturava-se ao de pão quente e manteiga derretendo. Era um cheiro que me acalmava. Eu precisava disso depois de tudo o que havia acontecido.
Cecília ainda dormia. A noite tinha sido tranquila, e isso por si só já era uma vitória. Eu aproveitava aquele raro momento de silêncio para organizar meus pensamentos, mas eles insistiam em voltar sempre ao mesmo ponto: Adriano.
Eu não o vira desde que chegáramos da capital. Nem um bom-dia distante, nem um olhar atravessado no corredor. Era como se ele tivesse se recolhido a um território inacessível, e eu estivesse aprendendo, mais uma vez, a existir à margem dele.
Foi o som de um motor que me tirou desse devaneio.
Não era o barulho comum dos carros da fazenda. Era diferente, mais pesado, mais decidido. Instintivamente, virei o rosto em direção à grande janela da cozinha, que dava para o pátio frontal.
Uma picape levantava poeira ao longe, aproximando-se devagar, como se anunciasse a própria importância. O sol da manhã refletia na lataria clara, quase ofuscando a vista. O automóvel parou em frente ao casarão, e logo a porta do motorista se abriu.
Desceu um homem baixo e gordo, de passos firmes e postura confiante. Usava camisa clara, enfiada dentro da calça, e um chapéu que retirou assim que colocou os pés no chão. Mesmo de longe, dava para perceber o tipo: alguém acostumado a ser recebido, a ser notado.
Quase ao mesmo tempo, Adriano surgiu montado no cavalo, vindo da outra extremidade das terras. Quando ele saltou, meu coração reagiu antes da razão. Endireitei-me na cadeira, o café esquecido na mão. Observei cada movimento com atenção involuntária.
Eles caminharam um em direção ao outro e apertaram as mãos com força, num gesto que misturava cordialidade e hierarquia. Não houve abraço, mas houve sorrisos contidos, daqueles que dizem mais do que palavras.
Adriano parecia diferente ali fora. A postura ereta, o semblante sério, o corpo ocupando espaço. Era o Adriano fazendeiro, o homem respeitado da região. Não o homem silencioso que eu conhecia nos corredores, nem o homem vulnerável que eu vira na casa de praia.
— Quem é? — perguntei, sem tirar os olhos da cena.
Quitéria seguiu meu olhar e fez um som curto, como se já soubesse que aquela visita renderia assunto.
— Aquele ali? — disse ela, abaixando o fogo de uma das panelas. — É o prefeito da cidade.
— O prefeito? — repeti, surpresa, voltando-me para ela.
— Ele mesmo. Seu Álvaro. Vive aparecendo por aqui quando quer alguma coisa… ou quando tem festa grande chegando.
Voltei a olhar pela janela. O prefeito falava animadamente, gesticulando com as mãos, enquanto Adriano ouvia, sério, assentindo de vez em quando.
— Deve ser por causa do aniversário da cidade — continuou Quitéria, como se estivesse narrando um capítulo já conhecido. — É no próximo final de semana.
— Aniversário da cidade? — perguntei, interessada.
— Uhum. Quando chega essa época, minha filha… — ela balançou a cabeça, sorrindo. — A cidade vira outra coisa.
Quitéria apoiou as mãos na pia e começou a falar com o entusiasmo de quem já viveu aquilo muitas vezes.
— São três dias de festa. Três dias inteiros. Começa na sexta-feira à noite e só termina no domingo, quase de madrugada. Tem música, barraca de comida, leilão, missa, desfile… gente que você nem lembra que existe aparece do nada.


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