A manhã tinha começado tranquila e o sol entrava tímido pelas janelas altas do quarto de Cecília, desenhando faixas claras no chão de madeira. Eu estava sentada no tapete, com alguns cadernos abertos ao meu lado, enquanto ela desenhava concentrada, a língua presa no canto da boca, como sempre fazia quando estava imersa em algo só dela. O lápis de cor ia e voltava pelo papel, criando formas que só ela parecia entender completamente. Eu observava em silêncio.
Minha cabeça ainda estava cheia de pensamentos soltos — Adriano, a festa da cidade, o jeito frio com que ele falara comigo na noite anterior —, mas eu tentava manter tudo isso trancado em algum canto da mente para não contaminar aquele momento simples com Cecília.
Foi quando ouvi uma batida leve na porta.
— Marja? — A voz de Benedita soou do outro lado, respeitosa como sempre.
Levantei-me e abri.
— Tem alguém aí embaixo querendo falar com você — disse ela, com um sorriso curioso. — Uma moça. Disse que é sua amiga.
Meu coração deu um pulo estranho, uma mistura de susto e expectativa.
— Amiga?
Benedita assentiu.
— Está na sala.
Olhei para Cecília, que continuava desenhando alheia a tudo. Ajoelhei-me ao lado dela e toquei de leve seu ombro. Ela levantou o rosto e me encarou com aqueles olhos atentos.
— Já volto, tá bem? — falei devagar, acompanhando as palavras com gestos simples. — Fica aqui com seus desenhos.
Ela assentiu, voltando ao papel como se nada no mundo fosse mais importante do que aquele traço azul que agora surgia.
Desci as escadas com o coração acelerado. Quando cheguei à sala e meus olhos encontraram a figura em pé perto da janela, por um segundo achei que estava imaginando coisas.
— Jana… — falei num sussurro.
Ela se virou no mesmo instante. Os olhos se arregalaram, e antes que qualquer palavra fosse dita, nós duas já estávamos correndo uma em direção à outra. O abraço foi forte, apertado, desses que parecem querer compensar o tempo perdido. Senti o cheiro familiar dela, ouvi sua respiração descompassada, e algo dentro de mim finalmente cedeu.
— Eu não acredito que você está aqui! — falei, com a voz embargada.
— Eu precisava te ver — ela respondeu, apertando-me ainda mais.
— Que bom te ver! — Falei com sinceridade. — Nunca achei que você apareceria por aqui.
— Então, me deu o endereço para quê? — ela falou com aquele jeito costumeiro.
Rimos e choramos ao mesmo tempo, um riso nervoso, emocionado. Afastamo-nos um pouco apenas para nos olharmos melhor, como quem precisa confirmar que a outra é real.
— Você está diferente — Jana disse, passando os olhos pelo meu rosto. — Mais magra, mas está parecendo mais forte também; talvez mais madura, mais adulta. Não sei explicar.
— Você está ótima! — falei.
Ela sorriu de um jeito misterioso, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, eu a puxei pela mão.
— Vamos dar uma volta lá fora. Quero te mostrar a fazenda.
Saímos juntas, atravessando o pátio enquanto o sol já se mostrava mais decidido. Jana olhava tudo com atenção, como se estivesse entrando em outro mundo. Os campos verdes interrompidos aqui e ali por cercas, árvores antigas e o movimento lento de alguns animais ao longe.
— Isso aqui é… enorme — ela disse, girando devagar sobre o próprio eixo. — Dá até para esquecer do resto do mundo.
— Aqui tem sido o meu refúgio. O lugar que encontrei paz.
Caminhamos até uma árvore grande, de copa generosa, que projetava uma sombra fresca sobre o chão. Sentamo-nos lado a lado, encostando as costas no tronco áspero. Por um instante ficamos em silêncio, apenas respirando o ar limpo, ouvindo o vento passar pelas folhas.
Jana foi a primeira a falar.


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