Passaram-se alguns dias desde que Jana foi embora.
Eu acordava cedo, ajudava Cecília a se vestir, preparava o café dela, sentava ao lado da menina enquanto ela desenhava ou treinava as letras que eu insistia em ensinar. Cecília continuava silenciosa, porém, expressiva nos olhos, nas mãos pequenas, nos gestos delicados.
Às vezes eu a observava e pensava que, de alguma forma, nós duas éramos parecidas: sobreviventes caladas, tentando entender um mundo que parecia grande demais.
Quanto a Adriano, eu quase não o via. Ele saía cedo, voltava tarde, e quando cruzávamos por acaso, era sempre rápido demais para qualquer conversa. Um “bom dia” seco. Um aceno de cabeça. Um olhar que passava por mim como se eu fosse parte da mobília da casa. Agora era só distância.
Adriano continuava bebendo. Do meu quarto, eu ouvia o ranger da escada, o som pesado dos passos, o tropeço contra a parede do corredor. Às vezes o vidro da garrafa batendo em algum móvel, denunciando aquilo que eu já sabia sem precisar ver.
As noites se tornaram um ritual metódico e repetitivo.
Mas não naquela noite.
Naquela noite eu desci para pegar água para Cecília, pois a água do vaso dela havia acabado. Quando voltava da cozinha, vi Adriano saindo do escritório. Ele parou na sala. Tinha uma garrafa de bebida na mão e seu olhar passeava pela casa como se buscasse algo. Mas quando me viu, me encarou.
Eu parei à sua frente e perguntei:
— Está tudo bem?
— E por que não estaria? — ele aproximou a garrafa da boca e deu um longo gole na bebida.
Ignorei a sua ironia. Permanecemos os dois no mesmo lugar. Em seguida ele me perguntou:
— O que faz acordada tão tarde?
Então ele percebeu que era tarde? Pensei. O que ele também fazia acordado tão tarde, com aquela maldita garrafa na mão?
Mas respondi o necessário:
— Vim pegar água para Cecilia.
Novamente o silêncio reinou entre nós. Percebi suas faces coradas pela bebida e vi que ele cambaleava um pouco. Então perguntei:



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