“Blake Reeve”
Eu não deveria ter pego o vinho.
Essa é a primeira coisa que penso quando coloco as taças sobre a mesa de centro e abro a garrafa.
Não é protocolo. Não está em nenhum manual.
E, se alguém da equipe entrasse agora e me visse abrindo uma garrafa de vinho para a pessoa que estou designado a proteger… eu não teria uma resposta profissional para dar.
Mas, ainda assim, fiz isso. Fiz porque vi como Sophia ficou depois que neguei a saída, mesmo se esforçando para disfarçar.
Não posso ignorar os riscos e levá-la a um pub qualquer numa sexta à noite só porque ela está com saudade da própria vida.
Mas, mesmo sabendo que não devo, posso fazer isso.
Sirvo as duas taças e me sento na poltrona ao lado do sofá, mantendo a distância que ainda faz sentido manter. Surpresa, ela olha para a taça, depois para mim e finalmente a pega devagar.
Em seguida, encosta no sofá e fica em silêncio por alguns segundos, olhando para o vinho com uma expressão que não consigo classificar completamente.
— Obrigada — diz, por fim, baixo.
— Não é um hábito — respondo, antes que ela ache que estou começando uma tradição de sexta-feira.
Ela solta um sopro baixo pelo nariz, quase um riso, e gira a taça entre os dedos.
— Fico aliviada. Já estava achando que tinha descoberto um ponto fraco seu.
— Não recomendo apostar nisso.
— Eu gosto de apostas, sabia? — rebate, erguendo a taça na minha direção antes de dar um gole.
Observo em silêncio enquanto ela bebe. Sem pressa, sem provocações. Só… aproveitando.
— Você acha que eu sou mimada — diz, de repente. — E não é uma pergunta, é uma observação. Você acha. A maioria deve achar também.
— O que você acha?
Ela considera por um momento.
— Acho que cresci num mundo onde certas coisas simplesmente existiam — responde, devagar. — Carro, cozinheiro, escola particular… Não pedi por isso, só era assim. Mas acho que, às vezes, confundi ter tudo com estar bem. São coisas diferentes.
Não respondo, porque sei que ela não quer que eu responda. Só quer falar.
— Em Manhattan eu tinha uma rotina que funcionava — continua, mais baixo. — Trabalho, as pessoas certas, os lugares certos. Não era perfeito, mas era meu. E funcionava.
Ela faz uma pausa curta, girando a taça entre os dedos.
— E agora estou aqui — acrescenta, com um sopro leve. — Numa cidade diferente, num apartamento que não é o meu, com alguém que eu nunca tinha visto na vida decidindo como devo viver.
Os dedos dela apertam levemente a base da taça.
— Então, se eu pareço… difícil, ou irritante, ou qualquer coisa assim… — dá de ombros, como se quisesse minimizar o próprio ponto — não é exatamente quem eu sou. É só… tudo isso.
— Vai passar — digo, baixo.
— Você sabe disso?
— Porque vou fazer de tudo para isso acontecer.
— Sabe o que é engraçado? — diz, com a voz um pouco mais leve. — Você é o homem com quem mais passei tempo acordada.
Não respondo, porque sei que, se responder, abro espaço para uma conversa que não deveria existir.
Ela ri sozinha, jogando a cabeça para trás.
— A você, Sr. Reeve — diz, com uma reverência exagerada. — Pelo vinho, pela cozinha e por ser o guarda-costas mais irritante e surpreendente que eu já tive.
— Sou o único que você já teve.
— Exatamente. Então a barra era baixa e você ainda assim surpreendeu.
Ela ergue a taça mais uma vez, mas dessa vez não bebe. Fica me olhando por um segundo a mais do que o necessário, depois balança a cabeça e pisca algumas vezes.
— Preciso mandar foto para eles. Para aqueles dois verem que também estou curtindo a noite — diz, de repente, tateando o sofá. — Droga, meu celular ficou na cozinha.
— Pego para…
Mal tenho tempo de terminar a frase quando ela se levanta rápido demais, perde o equilíbrio e dá um passo na direção errada.
Num movimento automático, me levanto e seguro o braço dela antes que caia. No segundo seguinte, o problema acontece.
Porque, ao invés de se afastar, Sophia agarra minha camisa com uma mão e fica perto demais. A outra mão se apoia no meu braço, e os olhos sobem devagar até encontrar os meus.
— Você tem olhos irritantemente bonitos — murmura, como se estivesse dizendo em voz alta algo que pensou vezes demais para guardar.
Então, sem me dar tempo de reagir… ela me beija. E meu corpo corresponde antes que eu consiga impedir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá Proibida do CEO