“Sophia Sinclair”
O gosto do vinho ainda está na minha boca quando percebo o que estou fazendo. Ou melhor… quando percebo com quem estou fazendo.
E, por um segundo que dura tempo demais, eu não me afasto.
Primeiro, porque meu corpo simplesmente se recusa. Depois, porque, no instante seguinte, sinto a mão dele segurar minha cintura com uma naturalidade que me faz perder o fio de qualquer pensamento que eu tinha.
Por um segundo, o mundo fica muito quieto.
Então, ele se afasta, dando um passo para trás. O espaço entre nós volta a existir como se precisasse ser reafirmado às pressas.
Demoro um segundo para entender o que acabou de acontecer. Dois para registrar a distância entre nós outra vez. Três para sentir o calor subir pelo meu rosto.
Dou um passo para trás antes que ele precise pedir.
— Eu… isso foi um erro — completo, rápido demais, olhando para o lado. — Foi culpa do vinho. Eu… bebi mais do que devia.
— Isso não pode acontecer de novo — ele completa, com a voz baixa e controlada.
— Eu sei.
Engulo em seco, cruzando os braços sem perceber, como se isso fosse conter o constrangimento no lugar.
— Eu vou… — continuo, apontando vagamente para o corredor. — Vou pegar meu celular.
Não espero resposta e saio da sala sem pressa, porque correr seria admitir demais. Quando chego na cozinha, encosto na bancada e levo a mão ao peito.
Meu coração está acelerado de um jeito que não tem nada a ver com o susto de quase cair.
Fico parada por alguns segundos, respirando, olhando para a pia sem realmente enxergar nada.
Depois, percebo que estou sorrindo.
Levo alguns segundos para entender o que isso significa. E, quando entendo, o sorriso diminui um pouco… mas não some.
Sim, bebi. Mas não o suficiente para usar o vinho como desculpa. Essa é a parte que me incomoda, porque seria muito mais simples se fosse. Bebi, perdi o juízo por trinta segundos, fim. Mas não foi isso.
Eu bebi o suficiente para ficar corada e falar mais do que devia, não o bastante para beijar alguém sem querer.
O que é pior. Muito pior.
Porque significa que alguma parte completamente insana de mim quis fazer isso.
— Maravilha — murmuro para mim mesma, passando a mão no rosto. — É oficial. Estou enlouquecendo.
Balanço a cabeça, pego o celular da bancada com mais força do que o necessário e volto para a sala com uma expressão que espero ser neutra o suficiente.
Blake está em pé, em frente à janela. Longe do sofá, longe das taças, longe de tudo que aconteceu há dois minutos. A distância é física, mas parece ir muito além disso.
Porque, olhando para ele, é como se aquela presença fechada do primeiro dia tivesse voltado. Como se ele tivesse puxado uma cortina e trancado tudo do lado de dentro.
Perfeito. De volta à estaca zero da convivência.
Consigo encará-lo por exatamente três segundos antes de desviar.
— Só quero dormir — murmuro, fechando os olhos com força, ficando quieta até finalmente ficar com sono.
Funciona por alguns minutos. Então, ouço os passos dele no corredor, a porta do quarto ao lado, depois… silêncio.
Do outro lado da parede, talvez ele esteja sentado com aquela postura inabalável, sem ter metade dos pensamentos que estou tendo agora.
Porque ele recuou. Não se abalou.
Enquanto eu estou aqui, deitada no escuro, sem conseguir dormir, sem conseguir parar de pensar que beijei meu guarda-costas e… gostei.
— Isso foi uma péssima ideia — murmuro para o travesseiro.
Viro de costas, depois de lado de novo, puxo o cobertor até o queixo e encaro a parede como se ela pudesse me dar alguma resposta inteligente.
Por fim, tomo uma decisão completamente inconsequente.
— Você vai se arrepender disso, Sophia — sussurro, já me levantando.
Ainda no escuro, visto o robe de cetim e abro a porta devagar, como se o silêncio pudesse denunciar o que estou fazendo. Paro por um segundo, olhando na direção da porta dele.
Deveria voltar. É a coisa mais inteligente a fazer. Mas, quando percebo, já estou parada em frente à porta dele, com a mão suspensa no ar.
— Última chance de desistir — sussurro, mas já batendo.
Alguns segundos depois, ele abre a porta e, antes que eu consiga pensar melhor… eu o beijo.

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