Tiffany finge beber um pouco de água, e o silêncio tenso se instala na cozinha. Ela é péssima em disfarçar qualquer coisa.
Fico parada por um segundo que dura tempo demais antes de me virar devagar. Blake está na entrada da cozinha, com um copo vazio na mão.
A expressão é a mesma de sempre: fechada, neutra, completamente ilegível. Não há como saber quanto ele ouviu. Não há como saber se ouviu alguma coisa.
Mas ele estava ali, e a cozinha não é grande.
— Desculpa a interrupção — diz, com o tom de sempre, e vai direto à pia.
Tiffany me lança um olhar rápido que significa pelo menos dez coisas ao mesmo tempo. Eu respondo com um olhar que diz “finge que não aconteceu nada”.
Volto a olhar para a tela do notebook enquanto ela pega alguns papéis e finge ler, tentando sustentar uma normalidade que não existe.
Blake lava o copo, coloca água devagar e sai da cozinha sem pressa, sem olhar para mim uma única vez.
Tiffany espera alguns segundos longos, só para ter certeza de que ele não vai voltar, e só então se inclina na minha direção.
— Será que ele ouviu? — sussurra, mordendo o lábio.
— Não sei.
— Acho que sim — ela insiste, passando a mão no braço, nervosa. — Aí, meu Deus… agora mesmo que ele proíbe a minha entrada aqui.
— Não sabemos, então vamos parar de especular, ok?
Ela assente, nem um pouco convencida, mas não insiste no assunto.
Owen volta alguns minutos depois, guardando o celular no bolso com uma expressão levemente irritada que só pode significar que meu irmão foi meu irmão no telefone.
— Onde estávamos? — pergunta, se sentando novamente.
— No fornecedor — respondo, abrindo o notebook com uma naturalidade que não sinto. — Tudo bem?
— Sim. Só alguns ajustes de última hora que seu irmão quis ter certeza antes de aprovar — responde, passando a mão no cabelo antes de voltar aos papéis.
E voltamos ao trabalho como se nada tivesse acontecido.
Como se Blake não estivesse do outro lado da parede. Como se eu não tivesse meu coração disparado há alguns minutos, quando me virei e o encontrei ouvindo nossa conversa.
Ou não. Quem sabe?
Tiffany não menciona mais nada, Owen não percebe nada de errado — ou finge muito bem — e eu continuo forçando minha normalidade, o suficiente para que ninguém questione nada.
É o que sei fazer melhor ultimamente.
⋆ ˚。⋆୨୧˚
O dia termina sem maiores incidentes.
Owen vai embora primeiro, explicando que precisa enviar alguns documentos para o Lucas. Tiffany vai embora alguns minutos depois, me lançando um olhar demorado na porta que finjo não entender.
Quando o apartamento volta ao silêncio, me sento no sofá e fico olhando para o notebook aberto sem realmente enxergar nada.
Blake, que estava no lugar de sempre, se afasta sem me olhar e vai para o quarto mais cedo do que o normal.
Não fica perto da janela como costuma ficar nesse horário, com o tablet na mão, monitorando o que precisa monitorar. Não aparece na cozinha para pegar café.

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