Acordo antes do alarme e me viro de barriga para cima, encarando o teto, com aquela lerdeza de quem dormiu, mas não descansou como deveria.
O quarto está igual ao de sempre: a mesma luz entrando pela fresta da cortina, o mesmo silêncio do apartamento pela manhã.
O mesmo vazio.
Viro de lado, puxo o cobertor até o queixo e fico quieta por mais alguns segundos, tentando entender por que, mesmo com tudo igual, tenho a sensação de que alguma coisa está fora do lugar.
A resposta vem rápido, porque o problema não é o que está acontecendo. É o que não está.
Durante a madrugada, quando não consegui dormir e fui buscar água, não tinha ninguém.
Ninguém apareceu no corredor para conferir se tudo estava bem, como se tivesse sentido a presença antes mesmo de eu fazer qualquer barulho.
Não havia ninguém lá.
Só o corredor escuro e o silêncio de um apartamento que, de repente, parece maior do que deveria.
Nos últimos dias, mesmo com tudo aquilo pesando entre nós, mesmo me sentindo incapaz de olhar para Blake por mais de três segundos, eu sabia que ele estava do outro lado da parede.
Que, se eu abrisse a porta do quarto às três da manhã, ele estaria lá, com aquela postura inabalável e a arma em punho.
Era irritante, sufocante, mas era a nossa rotina.
— Ridículo — murmuro, passando a mão no rosto.
É estranho pensar que, após três dias evitando, fingindo que nada aconteceu, que aquele sonho não mexeu comigo… ele resolveu tudo tão rápido.
Resolveu com base em uma frase dita por alguém sob a pressão do estresse, que só estava tentando fingir que não estava afetada.
Agora, Blake se foi e deixou uma cópia defeituosa dele no lugar.
Defeituosa porque, mesmo sendo tão sério quanto, Miller foi educado e tentou puxar conversa comigo.
Perguntou se eu tinha preferências para o jantar, comentou sobre o tempo em Chicago, fez o tipo de esforço educado que Blake nunca fez, porque Blake nunca tentou ser nada além do que ele é.
Respondi o suficiente para não ser grossa e fui para o quarto mais cedo do que o necessário.
Bufo, me sento na cama e esfrego o rosto com as duas mãos.
— Você queria isso — murmuro, me levantando. — Lembra? Ficar sozinha. Se livrar da bagunça.
Sim. Eu queria.
E chega a ser irônico saber que está acontecendo exatamente o que tanto fiz questão… e agora sentir falta disso.
Entro no banheiro, lavo o rosto com água fria e me encaro no espelho por alguns segundos a mais do que o necessário.
— Você pediu isso — digo para o reflexo, em voz baixa. — Então, para de fazer essa cara.
O reflexo não responde, claro.
Escovo os dentes, prendo o cabelo e troco de roupa. Quando saio do quarto, o corredor está vazio e silencioso, como esteve a noite toda.
Sigo para a cozinha, ainda tentando me convencer de que estou bem, que é só uma questão de adaptação, que em dois dias isso vai parecer completamente normal.
Paro na entrada da cozinha.
A bancada está vazia, a cafeteira desligada e não há nenhum cheiro de café no ar.
Fico olhando para a cafeteira por um segundo, como se ela pudesse explicar alguma coisa.

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