A manhã começa como todas as outras desde que Blake voltou.
Quando saio do quarto, já tem café feito, um apartamento em silêncio e ele está de pé perto da janela com o tablet na mão, já em pleno funcionamento.
— Bom dia, Blake.
— Bom dia. O café está pronto.
Agradeço e vou direto para a cozinha, sorrindo sem perceber. Sim, ele está me evitando firmemente nesses últimos dois dias, mas o café sempre está pronto e sou grata por isso.
Pego uma xícara, me sirvo um pouco do café e volto para a sala.
Me sento no sofá, dobrando as pernas embaixo do corpo, e seguro a xícara com as duas mãos, encarando as costas dele.
Blake continua na janela, mas o tablet agora está na mesinha. Ele está só olhando para a rua lá embaixo, com as mãos juntas atrás das costas.
— Você sempre foi uma pessoa matinal ou é parte do pacote de guarda-costas perfeito? — pergunto, soprando o café antes de tomar um gole
Ele vira o rosto na minha direção, só o suficiente para me olhar pelo canto do olho.
— Hábito.
— Militar?
— Sim.
— Quantos anos?
— Mais do que você gostaria de saber.
— E você não sente falta?
Dessa vez ele vira de frente, me encarando com aquela expressão que sempre faz quando está pensando o quanto quer responder.
— Às vezes — diz, por fim.
É pouco, quase nada, mas vindo dele, que distribui informação sobre si mesmo como se cada palavra custasse alguma coisa, é o suficiente para eu guardar com cuidado.
A manhã continua assim, nesse território que não tem nome oficial, mas que nós dois sabemos exatamente onde fica.
Ele tenta manter o limite. Eu testo onde exatamente esse limite está agora, depois de tudo.
Quando termino o café, aproveito que ele foi para a cozinha e sigo seus passos pouco depois. O encontro encostado perto da pia, verificando algo no celular enquanto bebe água.
Me aproximo e ele não se mexe. O ombro dele fica a centímetros do meu.
— Com licença — murmuro, mais baixo do que pretendia. — Você está no meu caminho.
— Estou parado aqui há cinco minutos.
— E agora está no meu caminho.
Ele me olha por um segundo longo demais, e sinto meu coração acelerar de um jeito ridículo. O olhar dele desce por um segundo, rápido demais para ser ignorado, e volta para o meu rosto.
— Sophia… — começa, com a voz rouca.
— O quê? — respondo, me aproximando um pouco.
Erro. Porque agora não tem mais espaço suficiente entre nós para fingir que isso é só uma conversa.
A mão dele se mexe devagar, como se estivesse me dando tempo para recuar.
Quando não recuo, os dedos encostam na minha bochecha, deslizam até o meu queixo, inclinando levemente minha cabeça para cima.
Minha respiração falha por um segundo.
— Isso não é uma boa ideia — ele murmura, mas não se afasta.
— Você já disse isso antes — respondo, baixo, sem conseguir desviar os olhos dos dele.
Owen apoia a pasta na bancada e passa a mão no cabelo, com aquela expressão de quem já está mentalmente em três lugares diferentes ao mesmo tempo.
— Ainda não, mas ela disse que passa aqui mais tarde — responde, abrindo o notebook antes de finalmente me encarar sem pressa. — Você está bem? Você parece diferente.
— Diferente como?
— Não sei. Mais quieta do que o normal.
— Nada. É só que…
Começo, mas paro sem encontrar as palavras certas, sem parecer ridícula. Conheço Owen há anos, sempre tive liberdade de contar tudo para ele, assim como ele também sempre fez comigo.
Mas dizer em voz alta que estou interessada no meu guarda-costas parece estranho demais.
— Sophia, o que está acontecendo?
— Passei tanto tempo aqui dentro que acho que está começando a mexer com a minha cabeça de um jeito que não devia.
— Que jeito?
Hesito novamente. Owen espera, com a paciência de quem sabe que forçar não funciona comigo e que o silêncio eventualmente cobra o que quer.
— Do jeito que te faz beijar seu guarda-costas.
Owen abre a boca, depois fecha, surpreso. Quando ele finalmente vai responder, é interrompido pela vibração do meu celular.
Pego o aparelho por reflexo e encontro uma mensagem de um número que não está salvo. Nunca está.
“É curioso como algumas pessoas acham que estão escondidas quando, na verdade, só estão esperando o momento certo de serem encontradas.”
Leio duas vezes, só para ter certeza.
Tudo estava calmo demais para ser verdade. É claro que ele apareceria para roubar minha paz novamente.

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