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A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor romance Capítulo 86

Vivian

O tilintar dos eléctricos amarelos deveria ser a trilha sonora de sua liberdade, mas nos últimos dias, o som que mais dominava os ouvidos de Vivian era o eco dos passos de Eduardo Braga - sempre a uma distância calculada, sempre presentes, como uma sombra teimosa que se recusava a ser deixada para trás.

Na manhã de sábado, enquanto se arrumava para ir à LX Factory para a feira de antiguidades que Matheus insistira para que ela visitasse, Vivian sentia a presença dele antes mesmo de virar as chaves para abrir a porta do apartamento. Um formigamento na nuca, uma alteração quase imperceptível na atmosfera ao seu redor. Como se o próprio ar se densificasse quando Eduardo Braga estava por perto.

- Já são nove e um minuto - a voz dele soou. - Você costuma ser mais pontual.

Ele estava parado a poucos metros, vestindo um jeans e uma camisa simples que tentavam - e falhavam - em disfarçar quem ele era. Até mesmo em roupas casuais, Eduardo carregava uma aura de poder que parecia distorcer o espaço ao redor.

- Eu disse dez horas - ela lembrou, ajustando a bolsa no ombro. - E "não chegue cedo" estava incluído no acordo.

- Estou atrasado, então - ele encolheu os ombros, um gesto descontraído que não combinava com o homem que ela conhecera. - Pelo meu relógio, são nove e cinco.

Ela resistiu ao impulso de sorrir. Era irritantemente charmoso, esse novo lado descontraído dele. Como se tivesse tirado um casaco pesado que usava há anos e agora se movesse com uma liberdade desconhecida.

- Você não precisa me acompanhar - disse, começando a andar. - Matheus me passou uma lista específica de peças. É trabalho.

- E eu sou excelente em negociações - ele acompanhou seu passo facilmente. - Posso carregar suas compras.

- Não estou aqui para comprar, estou aqui para prospectar.

- Então posso carregar suas prospecções.

Ela soltou um suspiro exasperado, mas seguiu andando, consciente de sua presença a seu lado. Nos últimos dias, aquela se tornara uma constante - Eduardo sempre por perto, sempre presente, sempre... cansado.

Era isso que mais a intrigava. O homem que outrora irradiava energia implacável agora parecia arrastar-se, com olheiras escuras sob os olhos e uma palidez que nem o sol lisboeta conseguia disfarçar. Várias vezes ela o flagrara bocejando quando pensava que ela não estava olhando, ou esfregando os olhos como se estivessem ardendo.

A LX Factory pulsava com energia criativa quando chegaram. O antigo complexo industrial transformado em centro cultural fervilhava de artistas, designers e turistas. Vivian mergulhou no trabalho com alívio, examinando peças de cerâmica e conversando com galeristas em português ainda hesitante.

Eduardo a seguia como um guarda-costas silencioso, carregando pastas e catálogos sem reclamar. Mas foi durante sua conversa com um ourives sobre uma coleção de joias artesanais que ela notou algo estranho.

O telefone de Eduardo vibrou insistentemente no bolso dele - ela reconheceu o toque específico que ele sempre usara para chamadas do escritório. Ele pegou o aparelho, olhou para a tela, e depois... desligou.

Vivian quase deixou cair a pulseira de prata que examinava. Eduardo Braga ignorando uma chamada de trabalho? O homem que atendia o telefone no meio do jantar, no cinema, até durante o próprio casamento?

- Tem problema? - o ourives perguntou, notando sua expressão.

- Não, não - ela recuperou a compostura, forçando-se a focar na negociação.

Nos minutos seguintes, observou Eduardo com atenção renovada. Ele parecia diferente - não apenas cansado, mas distante do mundo que sempre governara. Enquanto ela negociava preços de peças para a galeria, ele ficava parado, observando o rio Tejo ao fundo com uma expressão que ela não conseguia decifrar.

- Conseguimos - ela anunciou, voltando-se para ele com uma pasta de documentos. - Três artistas emergentes dispostos a expor no Brasil.

Ele pegou a pasta automaticamente. - Preciso carregar mais alguma coisa?

- Eduardo - ela cruzou os braços, estudando seu rosto. - Por que você está realmente aqui? Não em Lisboa, mas aqui, agora, carregando minhas pastas como um... carregador.

Ele pareceu surpreso pela pergunta. - Porque você me deixou vir.

- Isso não é resposta.

- É a única que tenho - ele respondeu, seu olhar intenso fixo nela. - Você me deixou vir. É mais do que eu tinha semana passada.

Algo em sua voz - uma vulnerabilidade genuína - fez com que seu coração acelerasse contra sua vontade. Era fácil resistir ao Eduardo arrogante, ao magnata impenetrável. Mas esse homem cansado, disposto a carregar suas pastas sob o sol de Lisboa... esse era perigoso.

- Vamos tomar um café - ela sugeriu, apontando para um dos cafés escondidos nos pátios internos da LX Factory. - Você parece que vai desmaiar.

- Não vou desmaiar - ele protestou, mas seguiu-a.

O café era pequeno e aconchegante, com mesas de madeira desgastada e o aroma de café recentemente moído pairando no ar. Enquanto esperavam seus pedidos, o telefone de Eduardo vibrou novamente. Desta vez, era Gustavo.

Vivian observou, fascinada, enquanto ele silenciava o aparelho novamente.

- Você está ignorando o trabalho? - ela não conseguiu conter a pergunta. - O mesmo trabalho que você uma vez voou de volta de Tóquio com apendicite, só pra não perder um contrato?

- O mundo não vai acabar se eu não atender o telefone - ele respondeu, passando a mão pelo rosto num gesto de cansaço que parecia vir dos ossos.

- Quem é você e o que fez com Eduardo Braga? - ela brincou, mas havia uma pergunta genuína por trás das palavras.

Os pedidos chegaram - um chá para ele, um expresso para ela. Ele pegou a xícara pequena com mãos que tremiam levemente.

- Estou trabalhando em dois fusos horários - ele admitiu, como se tivesse lido seus pensamentos. - Reuniões com Nova York até meia-noite, acordando às cinco para conferências com Xangai.

O cálculo fez com que seus olhos se arregalassem. - Você está dormindo... três, quatro horas por noite?

- Algo assim - ele encolheu os ombros, bebendo o chá como se fosse medicamento.

- Por quê? - a pergunta saiu mais suave do que ela pretendia. - Você tem uma empresa para administrar. Um IPO que acaba de ser lançado. Por que está aqui, destruindo sua saúde para... me seguir?

- Não - ele interrompeu suavemente. - Você não precisa dizer nada. Apenas... me deixe ficar. Me deixe provar que posso ser diferente.

Havia uma honestidade crua em seus olhos que ela nunca vira antes. O Eduardo que ela conhecera sempre escondera suas vulnerabilidades atrás de paredes de arrogância e controle. Este homem... este homem estava se mostrando nu emocionalmente, e era assustadoramente atraente.

Terminaram a refeição em silêncio, o som dos talheres contra a louça preenchendo o espaço entre eles. Quando a conta chegou, ele insistiu em pagar.

- Deixe-me fazer isso - ele pediu. - É a única coisa que posso fazer por você agora.

Na caminhada de volta para o Príncipe Real, o cansaço dele ficou ainda mais evidente. Várias vezes ele tropeçou levemente nos paralelepípedos, e Vivian instintivamente estendeu a mão para firmá-lo.

- Você precisa dormir - ela insistiu, sua voz carregada de uma preocupação que não conseguia mais disfarçar.

- Vou dormir quando você me disser para ir embora - ele respondeu, um sorriso cansado brincando em seus lábios.

Chegaram ao prédio quando o sol começava a se pôr, tingindo o rio de tons de laranja e roxo. No saguão silencioso, a realidade do dia findo pareceu cair sobre ambos.

- Obrigada pela companhia - ela disse, suas chaves tilintando em sua mão. - E por carregar minhas coisas.

- Obrigado por me deixar acompanhá-la - ele respondeu, seus olhos escuros fixos nela no crepúsculo que se instalava.

Havia um momento de hesitação - um daqueles instantes suspensos no tempo onde tudo pode mudar. Vivian olhou para ele - realmente olhou - e viu não o magnata que a magoara, mas o homem que estava se destruindo para ficar perto dela. O homem que ignorava ligações importantes, que trabalhava até cair de cansaço, que comia quando ela lembrava, tudo por uma chance de redimir-se.

- Eduardo - ela sussurrou, seu coração batendo forte em seu peito.

Ele pareceu sentir a mudança no ar, seus olhos se arregalando levemente. - Vivian?

Sem pensar, sem planejar, ela fechou a distância entre eles. Seus lábios encontraram os dele em um beijo que começou suave, quase hesitante, mas que rapidamente se transformou em algo mais profundo, mais urgente. Era como se todos os anos de distância, todas as palavras não ditas, todas as oportunidades perdidas estivessem sendo canalizadas naquele único contato. Suas mãos encontraram seu rosto, os dedos tremendo levemente enquanto beijava-o com uma intensidade que a surpreendeu. Era um beijo que tinha o gosto do perdão, da saudade e daquilo que poderia ter sido - um turbilhão de sentimentos que ela guardara por tempo demais.

Quando finalmente se separaram, ambos estavam sem fôlego, seus rostos separados por apenas alguns centímetros.

- Parece que você vai desmaiar - ela falou, um sorriso pequeno e trêmulo brincando em seus lábios.

Antes que ele pudesse responder, ela entrou em seu apartamento e fechou a porta, deixando-o sozinho no corredor escuro - mas, pela primeira vez desde que chegara a Lisboa, não sozinho de verdade.

Do outro lado da porta, Vivian encostou-se na madeira sólida, sua mão tocando os lábios que ainda formigavam com o gosto dele. Seu coração batia acelerado, um misto de medo e excitação correndo em suas veias. Era um risco, um passo atrás, uma loucura.

E no corredor, Eduardo permaneceu parado por longos minutos, seus dedos tocando os lábios onde o beijo dela ainda ardia como uma promessa - frágil, perigosa e irresistivelmente linda.

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