Vivian
O tilintar dos eléctricos amarelos deveria ser a trilha sonora de sua liberdade, mas nos últimos dias, o som que mais dominava os ouvidos de Vivian era o eco dos passos de Eduardo Braga - sempre a uma distância calculada, sempre presentes, como uma sombra teimosa que se recusava a ser deixada para trás.
Na manhã de sábado, enquanto se arrumava para ir à LX Factory para a feira de antiguidades que Matheus insistira para que ela visitasse, Vivian sentia a presença dele antes mesmo de virar as chaves para abrir a porta do apartamento. Um formigamento na nuca, uma alteração quase imperceptível na atmosfera ao seu redor. Como se o próprio ar se densificasse quando Eduardo Braga estava por perto.
- Já são nove e um minuto - a voz dele soou. - Você costuma ser mais pontual.
Ele estava parado a poucos metros, vestindo um jeans e uma camisa simples que tentavam - e falhavam - em disfarçar quem ele era. Até mesmo em roupas casuais, Eduardo carregava uma aura de poder que parecia distorcer o espaço ao redor.
- Eu disse dez horas - ela lembrou, ajustando a bolsa no ombro. - E "não chegue cedo" estava incluído no acordo.
- Estou atrasado, então - ele encolheu os ombros, um gesto descontraído que não combinava com o homem que ela conhecera. - Pelo meu relógio, são nove e cinco.
Ela resistiu ao impulso de sorrir. Era irritantemente charmoso, esse novo lado descontraído dele. Como se tivesse tirado um casaco pesado que usava há anos e agora se movesse com uma liberdade desconhecida.
- Você não precisa me acompanhar - disse, começando a andar. - Matheus me passou uma lista específica de peças. É trabalho.
- E eu sou excelente em negociações - ele acompanhou seu passo facilmente. - Posso carregar suas compras.
- Não estou aqui para comprar, estou aqui para prospectar.
- Então posso carregar suas prospecções.
Ela soltou um suspiro exasperado, mas seguiu andando, consciente de sua presença a seu lado. Nos últimos dias, aquela se tornara uma constante - Eduardo sempre por perto, sempre presente, sempre... cansado.
Era isso que mais a intrigava. O homem que outrora irradiava energia implacável agora parecia arrastar-se, com olheiras escuras sob os olhos e uma palidez que nem o sol lisboeta conseguia disfarçar. Várias vezes ela o flagrara bocejando quando pensava que ela não estava olhando, ou esfregando os olhos como se estivessem ardendo.
A LX Factory pulsava com energia criativa quando chegaram. O antigo complexo industrial transformado em centro cultural fervilhava de artistas, designers e turistas. Vivian mergulhou no trabalho com alívio, examinando peças de cerâmica e conversando com galeristas em português ainda hesitante.
Eduardo a seguia como um guarda-costas silencioso, carregando pastas e catálogos sem reclamar. Mas foi durante sua conversa com um ourives sobre uma coleção de joias artesanais que ela notou algo estranho.
O telefone de Eduardo vibrou insistentemente no bolso dele - ela reconheceu o toque específico que ele sempre usara para chamadas do escritório. Ele pegou o aparelho, olhou para a tela, e depois... desligou.
Vivian quase deixou cair a pulseira de prata que examinava. Eduardo Braga ignorando uma chamada de trabalho? O homem que atendia o telefone no meio do jantar, no cinema, até durante o próprio casamento?
- Tem problema? - o ourives perguntou, notando sua expressão.
- Não, não - ela recuperou a compostura, forçando-se a focar na negociação.
Nos minutos seguintes, observou Eduardo com atenção renovada. Ele parecia diferente - não apenas cansado, mas distante do mundo que sempre governara. Enquanto ela negociava preços de peças para a galeria, ele ficava parado, observando o rio Tejo ao fundo com uma expressão que ela não conseguia decifrar.
- Conseguimos - ela anunciou, voltando-se para ele com uma pasta de documentos. - Três artistas emergentes dispostos a expor no Brasil.
Ele pegou a pasta automaticamente. - Preciso carregar mais alguma coisa?
- Eduardo - ela cruzou os braços, estudando seu rosto. - Por que você está realmente aqui? Não em Lisboa, mas aqui, agora, carregando minhas pastas como um... carregador.
Ele pareceu surpreso pela pergunta. - Porque você me deixou vir.
- Isso não é resposta.
- É a única que tenho - ele respondeu, seu olhar intenso fixo nela. - Você me deixou vir. É mais do que eu tinha semana passada.
Algo em sua voz - uma vulnerabilidade genuína - fez com que seu coração acelerasse contra sua vontade. Era fácil resistir ao Eduardo arrogante, ao magnata impenetrável. Mas esse homem cansado, disposto a carregar suas pastas sob o sol de Lisboa... esse era perigoso.
- Vamos tomar um café - ela sugeriu, apontando para um dos cafés escondidos nos pátios internos da LX Factory. - Você parece que vai desmaiar.
- Não vou desmaiar - ele protestou, mas seguiu-a.
O café era pequeno e aconchegante, com mesas de madeira desgastada e o aroma de café recentemente moído pairando no ar. Enquanto esperavam seus pedidos, o telefone de Eduardo vibrou novamente. Desta vez, era Gustavo.
Vivian observou, fascinada, enquanto ele silenciava o aparelho novamente.
- Você está ignorando o trabalho? - ela não conseguiu conter a pergunta. - O mesmo trabalho que você uma vez voou de volta de Tóquio com apendicite, só pra não perder um contrato?
- O mundo não vai acabar se eu não atender o telefone - ele respondeu, passando a mão pelo rosto num gesto de cansaço que parecia vir dos ossos.
- Quem é você e o que fez com Eduardo Braga? - ela brincou, mas havia uma pergunta genuína por trás das palavras.
Os pedidos chegaram - um chá para ele, um expresso para ela. Ele pegou a xícara pequena com mãos que tremiam levemente.
- Estou trabalhando em dois fusos horários - ele admitiu, como se tivesse lido seus pensamentos. - Reuniões com Nova York até meia-noite, acordando às cinco para conferências com Xangai.
O cálculo fez com que seus olhos se arregalassem. - Você está dormindo... três, quatro horas por noite?
- Algo assim - ele encolheu os ombros, bebendo o chá como se fosse medicamento.
- Por quê? - a pergunta saiu mais suave do que ela pretendia. - Você tem uma empresa para administrar. Um IPO que acaba de ser lançado. Por que está aqui, destruindo sua saúde para... me seguir?

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