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A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor romance Capítulo 85

Eduardo

Lisboa recebeu Eduardo com uma indiferença ensolarada que parecia zombar de seu desespero. A cidade, banhada na luz dourada que tanto poetas quanto turistas celebravam, revelou-se uma labirinto de ruas de paralelepípedos, colinas íngremes e eléctricos amarelos que tilintavam como sinos distantes. Tudo era estranhamente pitoresco e completamente assustador para um homem acostumado a ditar os termos de seu próprio universo.

Ele encontrou o prédio de Vivian no Príncipe Real, um edifício antigo de fachada cor-de-rosa com azulejos azuis em volta das janelas. Era exatamente o tipo de lugar que ela amaria - cheio de carácter, com vista para o Tejo, suficientemente longe dos circuitos turísticos mas perto o suficiente da animação do Bairro Alto.

A mulher da imobiliária, uma portuguesa de meia-idade com olhos que pareciam ter visto tudo, nem pestanejou quando ele ofereceu o triplo do valor de aluguel pelo apartamento vizinho ao de Vivian.

- O senhor sabe que a vizinha é brasileira, não sabe? - ela comentou enquanto preparava os documentos. - Chegou ontem. Uma moça muito simpática.

- Sim - Eduardo respondeu, sua voz um pouco áspera pela falta de sono. - Eu sei.

Ela estudou seu rosto por um momento, depois sorriu com um ar de compreensão. - Ah. É dessa maneira.

Ele não se deu ao trabalho de negar. Em vez disso, assinou os papéis com uma mão trêmula, transferiu o dinheiro e pegou as chaves. Em menos de duas horas de sua chegada a Lisboa, já estava instalado a menos de dez metros de distância de Vivian, separado apenas por uma parede de pedra do século XIX.

Seu primeiro movimento foi colocar o ouvido contra aquela parede, como um adolescente apaixonado. Ouviu o som distante de água correndo - ela estava no banho, talvez - e sentiu uma pontada de desejo tão intensa que quase o derrubou.

A primeira tentativa de contato foi um desastre previsível. Ele esperou até ouvir sua porta se abrindo - às 9h32 da manhã seguinte - e saiu como se fosse uma coincidência.

- Vivian - disse, tentando parecer surpreso.

Ela congelou no corredor, a chave ainda na fechadura, seus olhos se arregalando primeiro de surpresa genuína, depois de raiva pura.

- O que você está fazendo aqui? - a voz dela saiu gelada, cortante.

- Eu... - ele engasgou, completamente despreparado para a hostilidade nua em seus olhos. - Precisamos conversar.

- Não temos nada para conversar - ela cortou, fechando a porta com um clique definitivo. - E se você não sair deste prédio em cinco minutos, chamo a polícia.

Ele ficou parado no corredor, sentindo-se mais idiota do que jamais se sentira em sua vida. O grande Eduardo Braga, reduzido a um perseguidor de porta de apartamento.

Nos dias que se seguiram, ele aprendeu a rotina dela como um estudante aplicado. Ela saía às 8h45 para seu curso na Universidade, voltava às 12h30 para almoçar, saía novamente às 14h00 para visitar galerias ou se encontrar com colecionadores. Às 19h00, estava de volta, e ele ouvia o som abafado da televisão ou música até cerca das 23h00.

Ele trabalhava remotamente durante o dia - o IPO não iria se administrar sozinho, mesmo com Gustavo e Marcos lidando com a maior parte - mas sua atenção estava sempre dividida. Cada som do apartamento ao lado era um evento, cada porta que se abria ou fechava uma oportunidade potencial.

Sua segunda tentativa foi mais sutil. Ele a seguiu até um café na Rua da Misericórdia onde ela costumava tomar seu pequeno-almoço. Sentou-se duas mesas atrás, fingindo ler um jornal.

Ela o ignorou por vinte minutos inteiros, focada em seu laptop e em um pastel de nata que ela comia com uma concentração que ele achou absurdamente cativante.

- O café aqui é bom? - ele finalmente perguntou, quando não aguentou mais.

Ela nem olhou para cima. - Por que você não volta para o Brasil, Eduardo?

- Preciso te explicar sobre Elisa.

- Não me interessa - ela fechou o laptop com um clique seco. - E se você continuar me seguindo, vou conseguir uma ordem de restrição.

Ele assistiu ela sair, a bolsa jogada sobre o ombro, seus passos firmes nos paralelepípedos. E sentiu algo estranho - não raiva, não frustração, mas... respeito. Ela tinha se tornado esta mulher forte, confiante, que não se deixava intimidar por ele. E por algum motivo perverso, isso só o fez amá-la mais.

A virada veio em uma sexta-feira chuvosa. Ele a viu saindo do prédio sem guarda-chuva, e sem pensar, correu atrás dela com o seu.

- Tome - ele ofereceu, segurando-o sobre sua cabeça.

Ela parou sob a chuva, gotas escorrendo por seu rosto, e pela primeira vez, ele viu algo além de raiva em seus olhos. Viu... cansaço.

- Por que você não desiste? - ela perguntou, sua voz mais triste do que zangada.

- Porque te amo - a resposta saiu antes que ele pudesse pará-la. Simples, crua, verdadeira.

Ela ficou olhando para ele por um longo momento, a chuva criando uma cortina prateada ao redor deles. - Você está molhando seu terno.

- São apenas roupas.

Algo em sua expressão suavizou. - Vou até a Praça do Comércio. Pode me acompanhar, se quiser. Mas não vou falar sobre Elisa.

Foi o máximo de abertura que ele conseguiria, e ele agarrou-a como um homem se afogando.

Caminharam em silêncio sob o guarda-chuva, seus passos ecoando nas pedras molhadas. A cidade parecia diferente sob a chuva - mais íntima, mais real. Os turistas haviam desaparecido, deixando apenas os lisboetas apressados e eles dois, estrangeiros em uma terra estranha.

Na praça vasta à beira do Tejo, ela parou sob a arcada, olhando para o rio turbulento.

- Por que Portugal? - ele perguntou, genuinamente curioso.

Ela não olhou para ele. - Porque é longe o suficiente. E perto o suficiente. E porque... - ela fez uma pausa, - porque sempre quis ver os azulejos de perto.

- Os azulejos?

- Sim - um quase-sorriso tocou seus lábios. - Lembra quando éramos crianças e você me deu aquele livro sobre arquitetura portuguesa? Havia uma foto de uma escadaria coberta de azulejos azuis. Eu disse que um dia veria com meus próprios olhos.

Ele lembrava. Eles tinham doze anos. O livro era dele, um presente de seu avô. Ele a vira olhando para aquela foto com uma expressão de tão puro desejo que lhe deu o livro sem pensar.

- Você se lembra disso? - ele sussurrou, atordoado.

Ela finalmente olhou para ele. - Eu me lembro de tudo, Eduardo. Essa é parte do problema.

Naquele momento, sob a arcada da Praça do Comércio com a chuva cantando nos paralelepípedos, algo entre eles mudou. Não foi reconciliação, não foi perdão. Mas foi um reconhecimento de sua história compartilhada - aqueles anos antes de tudo dar errado, quando o amor era simples e não precisava de explicações.

- Há uma escadaria perto da Sé - ele disse. - Coberta de azulejos azuis. Quer ver?

Ela hesitou, e ele viu a guerra interna em seus olhos. A parte dela que ainda o amava contra a parte que tinha medo de ser ferida novamente.

- Apenas como... turistas - ela disse finalmente. - Nada mais.

- Apenas como turistas - ele concordou.

A Escadaria de São Miguel não era a dos seus sonhos infantis, mas era suficientemente próxima - uma cascata de azulejos azuis e brancos descendo uma colina íngreme, tão linda que ela prendeu a respiração quando a viu.

- Nossa - ela sussurrou, sua mão tocando os azulejos desgastados pelo tempo. - É mais bonito que na foto.

Ele não tirou os olhos dela, do modo como seus olhos brilhavam, do pequeno sorriso que finalmente chegou a seus lábios. Esta era a Vivian que ele amava - não a executiva bem-sucedida, não a mulher ferida, mas a garota que ainda podia se maravilhar com a beleza simples.

Oitenta e cinco 1

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