— E você me quer?
Noah tomou um pouco de água, secou os lábios sem nenhuma pressa e colocou o guardanapo de volta antes de me olhar.
— Estamos casados, Aurora. Eu sou um homem de negócios. Não compro mercadorias de segunda linha. Essas eu deixo para a concorrência. Se está sentada ao meu lado é porque merece estar.
Foi a primeira vez que gostei de ser chamada de mercadoria.
Comemos conversando sobre coisas bobas e eu amei aquelas horas.
— Conte-me mais sobre você, Aurora. Por que seu pai investiu na sua formação enquanto deixava a outra filha sem nada? É a preferida dos Swtz?
Fechei os olhos sem perceber. Lembrei do dia em que meu pai me deixou naquele colégio. Eu segurando o braço dele, implorando para que não me largasse ali enquanto Solange me puxava gritando que eu deveria deixar de ser infantil.
— Não sou a escolhida de ninguém, senhor Blanc. Eu sou aquela que presa dava menos trabalho. Só isso.
Noah segurou a mão que eu ergui para tentar disfarçar a lágrima que ameaçou escapar. Beijou a palma.
— Eu te escolhi, Aurora.
Puxei a mão de volta. Senti raiva daquela frase.
— Aceitou uma troca porque a mulher que você queria estava com defeito. Não é bem uma escolha, é?
Noah olhou novamente para a própria taça e perguntou tranquilo.
— Já tinha provado esse vinho?
— Não.
— E gostou?
— Sim, é perfeito.
— Você o escolheu?
— Não, a única coisa que escolhi hoje foi essa roupa.
— Mas agora que conhece esse vinho. Você o escolheria?
Pensei por alguns instantes enquanto Noah continuava comendo despreocupado e respondi com sinceridade.
— Se eu pudesse, tomaria todos os dias.
— Eu também, senhora Blanc. Agora coma.
Terminamos a refeição e fomos para uma espécie de salão reservado. Parecia uma convenção, ou algo assim.
Noah caminhou ao meu lado com a mão nas minhas costas.
Ali as mulheres pareciam quase iguais, a maior parte delas usava vestidos exclusivos e joias caríssimas que brilhavam pela qualidade e não pelo tamanho.
As vozes eram baixas, quase sussurradas e as risadas contidas.
Os homens com posturas firmes formavam pequenos grupos em que os ternos se alinhavam aos corpos como se fossem armaduras em uma guerra invisível.
E eu entrei naquele mundo sem me sentir uma invasora. Eu me senti certa. Sentia que finalmente ocupava o lugar de senhora Blanc.
Ninguém me olhou com estranheza, nem desdém.

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