— Como?
Noah deu um risinho debochado.
— Quer detalhes de logística ou visitar o seu pai?
— Ver o meu pai.
No subsolo do complexo de prédios, seguranças com fones de ouvido acenavam para o carro como se já nos esperassem.
Noah parou em frente ao elevador.
— Entre.
Abaixei a cabeça e fiz o que ele dizia.
Noah realmente não precisava de nada além de si mesmo. Ele não se preocupava se eu estava chorando, se a dúvida me consumia ou se aquela espera estava me matando.
Ele ajeitou a manga da camisa, escondendo a pele queimada, e então inclinou, posicionando o rosto próximo a uma espécie de câmera. Um pequeno raio de luz vermelha desceu pelo olho de Noah e a voz robótica surgiu em seguida.
— Seja muito bem-vindo, senhor Noah Blanc. Chegaremos à cobertura em alguns instantes.
Só senti o primeiro movimento do elevador, depois a sensação de que estava parado e a porta se abriu.
— Que lugar é esse, Noah? Onde está o meu pai?
— Estou cumprindo a minha parte do contrato, Aurora.
Ele indicou a saída do elevador. O piso de mármore escuro não lembrava um hospital, não havia aquelas luzes brancas que queimavam os olhos.
Passamos por um saguão enorme em que as pessoas evitaram nos olhar.
E quando paramos foi em frente a uma parede de vidro.
Meu pai estava do outro lado. Deitado em uma cama ampla, dois médicos seguravam tablets e conversavam coisas que, apesar da proximidade, era impossível ouvir.
— Seu pai foi trazido para cá ontem.
— Por que não me disse nada?
— Porque não te devo explicações sobre os meus negócios.
Meu pai não se parecia em nada com o homem pálido e suado que eu havia deixado no hospital universitário. Agora a pele estava seca e recebia luzes indiretas que eu não sabia a função.
Um tubo grosso saía de baixo do lençol, levando sangue para uma máquina quadrada que estava ligada a três monitores.
Eram tantos fios e tubos que meu coração apertou.
— Ele vai ficar bem?
— Enquanto eu quiser, ele ficará vivo. Eu comprei este andar. Os médicos, as máquinas, o ar que ele respira. Tudo o que você vê pertence aos Blanc.
Lembrei de um dia em que meu pai chegou em casa segurando duas bonecas e Suzanna correu para ele gritando que eu tinha batido nela.
Ele me olhou de um jeito tão triste. Os t***s de Solange não doeram tanto quanto quando meu pai disse que tinha decepcionado ele.
Pelo menos daquela vez eu estava fazendo algo certo.
— Estou aqui, pai.
Sussurrei, mesmo sabendo que ele não podia me ouvir. E Noah se aproximou das minhas costas.
— Você queria o divórcio, não é? Os papéis podem ser assinados amanhã. Mas, no momento em que a caneta tocar o papel, eu desligo as máquinas, retiro a equipe. E ele volta para aquela fila de espera de onde eu o tirei. A decisão é sua, Aurora.
— Por quê?
— Porque eu posso, Aurora. Eu tenho tudo o que eu quero e eu quero você.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto Noah segurava o meu queixo, me obrigando a olhar para o meu pai.

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