— Senhorita Aura!
— Você? O que faz aqui, Júlia?
Eu nunca esqueceria o rosto da mulher que fui obrigada a demitir.
— O RH me chamou de volta. Disseram que eu teria uma nova chance. Parece que, na análise de resultados, o meu nome se destacou e eles resolveram reavaliar a minha situação. Eu te procurei para devolver o cartão. E vou te devolver o que usei, não foi muito.
Aquilo me fez pensar em Noah. Quem ele era de verdade quando não estava sob o feitiço da minha irmã?
O homem capaz de deixar o próprio sogro em um hospital universitário ou o CEO que não se importava em reparar um erro?
— Que bom, Júlia. Fico feliz que tenha o seu emprego de volta. Agora tente não se colocar em novas encrencas, sim?
— Sim, senhora. Muito obrigada pela ajuda, apesar de eu não merecer.
Pensei por um instante e achei que não faria mal cobrar o favor.
— Quer saber, não precisa devolver o que usou, pode ficar com o cartão e usar quanto quiser, só me vende seu celular.
— Meu celular?
— Isso, pode sair na hora do almoço e comprar outro com o cartão que te dei, mas preciso de um celular agora. Por favor, Júlia. Sem perguntas.
Ela concordou. Também não deixei muita saída para ela.
— Tudo bem. Pode ficar.
Peguei o aparelho e passei o restante da tarde trancada no banheiro feminino tentando encontrar o meu pai.
Liguei para todos os hospitais públicos do Estado e, por fim, uma esperança. Talvez ele tivesse tido alta e o hospital não registrou a saída. Um erro, nada além disso.
— Vamos lá, Aurora. Vai dar certo.
Liguei para a casa do meu pai e, quando uma das empregadas atendeu, eu nem mesmo desejei boa tarde.
— Residência dos Swtz.
— O meu pai está em casa?
— Senhorita Aurora?
— Sou eu. Sabe quando o meu pai voltou para casa? Se ele está bem?
A funcionária que havia servido minha mãe e que ainda continuava na casa reconheceu meu desespero.
— Oi, menina. Nem o seu pai, nem a senhora Solange voltaram para casa desde a prisão da senhorita Suzanna. Devem estar resolvendo a situação.
— Não, a Suzanna já foi solta. Ninguém na empresa ligou para saber do meu pai?
— Ninguém, senhorita. Como você está? O seu marido te trata bem? Está comendo direitinho? A senhorita não comia quase nada.
— Estou bem. Preciso desligar, depois conversamos.
Assim que desliguei eu me senti péssima, não era daquela forma que costumava tratar as pessoas. Minha mãe teria puxado minha orelha se estivesse viva.
Mas precisava ligar para a empresa.
Fui atendida pela recepção principal, não me lembrava do ramal da sala da presidência e precisei esperar vários minutos até conseguir ser atendida pela secretária do meu pai.
— Escritório da Presidência, como posso servir?
— Oi, boa tarde. Meu nome é Aurora Swtz, sou filha de Antônio Swtz. Pode transferir para ele, por favor?
O desconforto na voz da secretária ficou óbvio.
— Ah, eu... espere um instante, por favor.
Ela desapareceu, vários e vários minutos esperando e nada. Apenas uma música irritante e a divulgação de resultados de cinco anos atrás, porque até eu sabia que os resultados atuais eram de decadência.

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