A dor tirou de mim a noção do que estava acontecendo, mas me deu força.
Estiquei a mão e agarrei a primeira coisa que encontrei.
Era um vaso de porcelana fina.
Bati com toda a minha força contra a cabeça do homem que estava com os dedos apertando a minha coxa.
Eu me cortei, mas não senti.
— Vagabunda!
Suzanna deu risada e se afastou.
— Ela é sua. Estou indo embora, não quero ver isso.
O oriental não respondeu, mas eu estava com tanto medo que continuei gritando e pedindo por socorro como se, em algum lugar, alguém pudesse me ouvir.
Eu sentia o calor úmido nas minhas costas, mas continuei gritando e me debatendo.
De repente a pressão que havia sobre mim desapareceu, foi literalmente retirada como se tudo aquilo não passasse de um pesadelo.
A sensação de leveza me fez abrir os olhos.
— Solta a minha mulher!
A voz de Noah me levou para um mundo seguro, onde eu podia chorar, ser frágil, me entregar.
Os olhos de Noah estavam diferentes do que me lembrava, pareciam pesados e sombrios.
O homem que Suzanna tinha levado para me ferir não teve chance.
Noah estava transtornado. Os socos atingiam o rosto do outro homem como se fossem marretas batendo no concreto.
O barulho oco lembrava madeira quebrando e, mesmo depois que o oriental desabou, Noah não conseguiu parar.
— EU VOU TE MATAR!
Tentei levantar da cama, queria fazer Noah se acalmar, mas assim que pisei no chão senti o sangue grosso escorrer pelas minhas coxas.
Gritei.
Aquilo tinha um significado e eu sabia qual era.
Noah olhou para mim e se fixou exatamente no mesmo lugar onde eu tentava segurar inutilmente.
— Aurora. Amor, eu…
Ele me pegou no colo, desceu as escadas correndo e, a cada passo que dava em meio à mata, gritava por socorro.
A mesma esperança inútil.
Ele me colocou no banco de um jipe antigo e sem muito conforto. Cobriu minhas pernas com a camiseta.
Dirigiu segurando a minha mão.
— Vai ficar tudo bem, Magricela. Eu não vou deixar ninguém tirar meu filho da gente.
Ele prometia chorando o que eu já sabia que era inútil.
— Noah, ele não está se mexendo.
— Está tudo bem. Ele só está com medo.
No hospital fomos atendidos muito mais rápido do que eu achei ser possível.
Tudo ao meu redor foi organizado para que o meu filho tivesse alguma chance.
Eu percebia o tremor nas mãos das enfermeiras, os olhares que as médicas trocavam.
Era sobre um bebê da família Blanc que elas estavam falando.
E isso tinha um peso muito maior do que apenas o peso de uma vida.

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