Noah percebeu o que aquela situação estava causando, mas, diferente do que tinha feito com Isabella, no meu caso ele não parou.
— Ela matou o meu filho, Aurora. Mesmo indiretamente, Solange é tão culpada pela morte do nosso bebê quanto a filha dela.
— Acha que meu pai sabia que essas coisas estavam acontecendo?
— Não, ou talvez Solange seja mais esperta do que imaginamos. A questão é que os dois estão por trás da internação da sua mãe.
Aquelas informações me faziam caminhar mais rápido, como se eu quisesse fugir do mundo.
Noah me acompanhava sem dar trégua.
— Seu pai fez mais do que isso. Ele usou a Suzanna para fazer o que ele jamais teria coragem. Ele sabia que você ia reagir. Ele queria que eu me distraísse com ela enquanto ele limpava os rastros dos negócios dele. Mas ele cometeu um erro.
— Qual?
— Ele deixou você viva. E o que aquele menino sentiu com um beijo nunca morreu, Aurora. Nenhuma mulher foi capaz de apagar.
Eu me sentia estranha. Era como se eu estivesse habitando um corpo que não era meu, ou descobrindo que o mapa que usei a vida inteira estava de cabeça para baixo.
— O que vamos fazer com ela? Com a minha mãe?
— Vamos devolvê-la ao mundo, Aurora. Mas, primeiro, vamos devolver a memória dela. E a sua.
— Como? Se os médicos apagaram tudo...
— Memória emocional não se apaga com comprimidos. Ela está aí, escondida embaixo do medo. O jeito que você dobra a toalha, o jeito que você olha para a banheira com medo, o modo que seu corpo se molda ao meu mesmo quando você me odeia... tudo isso é memória.
Paramos diante de uma pequena fonte de pedra. A água jorrava refletindo os raios de sol em uma dança bonita.
Eu senti um arrepio.
— Você quer que eu lembre de tudo? Até disso que insinuou?
— Eu quero que você recupere o que é seu. O ódio que você sente agora é justo, mas o ódio que você vai sentir quando lembrar da verdade... esse ódio vai te dar a força que você precisa para destruir o Antônio comigo.
Olhei para Noah. Pela primeira vez, eu vi além do monstro que ele fingia ser. Vi o menino de quatorze anos que viu a menina que amava ser dopada e transformada em um fantoche.
A vingança dele não era só sobre negócios ou traições de cama.
Nunca tinha sido porque Suzanna o enganou. Ele também tinha sido forçado a odiar alguém que amava.
As mentiras do meu pai o fizeram atravessar o inferno e, por mim, ele havia feito o impossível para salvar a vida do homem que ele odiava.
Aquele ódio, que começou com um resgate que durou mais de uma década, agora tinha se tornado sobre um pai que havia perdido seu filho em uma guerra sem sentido.
— Você me odeia, Noah?
Ele se inclinou, os lábios quase tocando os meus. O hálito dele era quente.
— Eu odiei a boneca que seu pai colocou no seu lugar. Mas a Magricela que briga comigo, que me desafia, que protege a mãe mesmo sem saber quem ela é... essa mulher eu não consigo odiar.
Ele me beijou.
Não foi como os outros beijos carregados de raiva ou desejo puro. Foi um beijo que carregava o peso de anos de espera.
Eu senti uma pontada na cabeça. Uma imagem rápida. Uma mão pequena batendo na água. Um grito abafado.
Me afastei.
— Eu vi... eu lembrei.
— O quê?
— Uma mão. Um anel de ouro com uma pedra verde.
Noah sorriu. Um sorriso sombrio, de quem acaba de vencer a primeira batalha.
— O anel da sua mãe. O que seu pai arrancou do dedo dela antes de mandá-la para o sanatório. Ele deu esse anel para a Solange, Aurora.
Senti o estômago contrair ao ponto de precisar me encolher.
Solange usava aquele anel todos os dias.

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