Palavras podem vir como promessa ou como sentença, e foi isso que fez alguma coisa dentro de mim parar de tremer.
Noah estava me oferecendo um tipo de proteção que eu desconhecia.
Meu corpo e minha mente tinham aprendido a se submeter, a aceitar o caos do mundo exterior.
Eu não era mais uma menina fugindo de um velho.
Mas ainda era uma mulher que se submetia à dor como se aquilo fosse o meu lar.
Sim, porque a dor pode ser lar.
Já o que Noah estava oferecendo não era consolo, nem era um amor bonito.
Era guerra.
Fiquei olhando para ele por alguns segundos, tentando entender em que momento aquilo tinha deixado de ser só sobre dor.
Agora era sobre o que vinha depois.
Sobre o que a gente faria com tudo aquilo.
Sobre o que faríamos juntos.
E como a vingança poderia ser, finalmente, nossa.
— E quem decide isso é você?
Minha voz saiu firme. Não como confronto, mas como teste.
Noah não soltou a minha mão.
Nem por um segundo.
— Não. Quem decide isso agora é você.
A resposta veio direta, sem jogo.
E foi exatamente isso que me fez puxar a mão de volta.
Não por rejeição.
Mas porque eu precisava sentir o meu próprio corpo sem a interferência dele.
Precisava entender até onde aquilo era escolha e até onde ainda era reação.
— Você já decidiu tudo, Noah. Sempre decidiu. Desde antes de eu saber que existia alguma coisa para ser decidida.
Ele me observou em silêncio.
Havia atenção. Cuidado.
Como se esperasse que eu chegasse sozinha onde ele já estava há muito tempo.
— Eu fiz o que precisava ser feito.
— Para quem?
Eu estava me defendendo.
Era o que eu sabia fazer.
— Para mim? Para você? Ou para essa ideia distorcida de controle que você chama de proteção?
Noah respirou fundo.
— Para garantir que você estivesse viva hoje para me fazer essas perguntas.
A lógica dele era feia.
Mas era correta.
E algo dentro de mim sabia disso.
Nada estava fora do controle de Noah Blanc.
Ainda assim, ele tinha colocado o próprio poder a meu serviço.
Que tipo de sentimento era esse?
Passei a mão no rosto, tentando organizar as peças que ainda não encaixavam.
— E agora?
Noah não hesitou.
— Agora não tem mais ninguém entre você e a verdade. Solange tirou sua mãe do caminho, mas Antônio construiu um império sobre sangue e mortes. Ele não construiu uma empresa. Arquitetou uma máquina de moer carne lucrativa.
Meu estômago revirou.
— E a verdade é o quê, Noah? Que eu fui criada dentro de uma casa onde qualquer homem podia entrar e fazer o que quisesse comigo enquanto meu pai fingia não ver?
Minha voz saiu mais alta. Mais pesada.
— Ou que você sabia de tudo isso e decidiu brincar de Deus com a minha vida porque achou que sabia o que era melhor para mim?
A respiração dele travou.
— Eu não sabia de tudo.
— Mas sabia o suficiente.
Tentei sorrir com ironia. Não consegui.
As lágrimas vieram.
— Engraçado… eu passei a vida inteira achando que estava tentando sobreviver a uma família quebrada. Mas no fim eu só estava andando em um jogo que vocês já tinham começado há anos.
— Não me coloca no mesmo lugar que o seu pai. Eu era um adolescente apaixonado pela amiga. Meu pai um idiota que queria aumentar o poder da família apoiando um acordo de casamento.
A voz dele mudou.
Levantei o olhar.
— Então me mostra a diferença.
Não era um desafio.
Era um pedido.
Noah tocou meu rosto.
— Eu não encosto em você sem que você queira. Sem que peça por mim. Lembra de quantas vezes implorou pelo meu corpo no seu auge, Aurora?
O ar ficou pesado.
Ele não me deu tempo para responder.

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