A traição tinha sabor de martírio.
Dei risada pensando em uma passagem bíblica onde a traição de Judas também aconteceu em um jantar.
Aquela sensação não era nova.
Era a primeira vez que eu não tentava fugir. Sempre que algo dentro de mim começava a endurecer, eu recuava, como se sentir fosse perigoso demais, como se reagir fosse perder o pouco controle que eu achava que tinha, mas agora não havia mais para onde voltar.
Aquelas pessoas não tinham apenas aprisionado minha mãe e matado a esperança da menina que fui. Também eram responsáveis pela morte do meu filho e por ele eu seria forte.
Pela memória do amor incondicional que dividimos mesmo que eu não tenha conhecido o rostinho do meu bebê.
O que tinham feito comigo não podia mais ser desfeito.
No entanto, eu ainda tinha escolha… o que eu faria com isso ainda estava nas minhas mãos, e essa era a única parte da história que realmente importava.
— Que horas?
Minha fala saiu firme apesar do meu coração espancar meu peito em todas as direções. O ar faltava e tudo o que restava de mim era a raiva que eu tentava transformar em força.
— O jantar começa às oito.
Abaixei a cabeça e as memórias que invadiram a minha mente foram as mais grotescas e absurdas possíveis.
Lembrei do vestido de Suzanna, da humilhação de usar uma roupa dela e da flor que o antigo amigo da minha mãe havia me oferecido.
— E quem mais vai estar lá?
— Pessoas que você conhece e algumas que você nunca viu, mas que fazem parte do mesmo jogo há mais tempo do que você imagina.
A revelação que antes me deixaria em pânico. Daquela vez, não me assustou. Eu estava indo para uma guerra e isso significava enfrentar quem quer que fosse. Incluindo o meu pai.
O homem que eu havia lutado para defender, quem eu queria salvar a vida, mas que também tinha fechado os olhos para a minha dor quando eu ainda não tinha nem mesmo idade para me defender.
— Então não é sobre os Swtz e a busca por dinheiro.
Noah negou ao mesmo tempo em que olhava para o horizonte.
— Nunca foi.
— O que você quer que eu faça?
Perguntei sem olhar para ele, mantendo os olhos no reflexo que parecia mais distante do que deveria.
— Nada que ele espere.
Noah se aproximou por trás de mim, mas não me tocou, e aquela distância calculada disse mais sobre ele do que qualquer gesto.
— Seu pai construiu tudo baseado na certeza de que controla as pessoas ao redor dele. Ele vai entrar naquela sala acreditando que você ainda é uma variável fraca, alguém que reage, que se perde, que quebra.
— E eu não posso quebrar.
— Você pode.
Não entendi a afirmação, mas também não fiquei brava ou nervosa.
— Pode quebrar e vou te ajudar a colar cada um dos cacos. Mas não na frente dele. Lá eu serei sua fortaleza e você a minha.
Passei a mão nos cabelos de Noah, organizando os fios de um jeito automático, lembrando de todas as vezes que precisei parecer normal para sobreviver em ambientes que nunca foram seguros.
— Ele vai tentar me testar. Dizer que ainda está doente, que é toda a família que tenho.
— Vai.
— Vai tentar me provocar.
— Vai.
— Vai mentir.
Noah inclinou levemente a cabeça.
— E você vai deixar.
Aquilo me fez ficar confusa.
— Deixar?
— Você não está indo lá para provar que sabe de alguma coisa, Aurora. Você está indo para assistir.
Aquilo ficou entre nós.
Assistir.
— E o que eu ganho com isso?
Noah deu um sorriso estratégico. Daqueles frios que ele sempre dava quando me provocava no início do nosso casamento.
— Informação.

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