POV: DAIMON
Ele estava calado. Fenrir. Silencioso demais. Nunca o senti assim. Mas a fome estava ali. A necessidade. As imagens de carnificina preenchiam minha mente com vívido realismo: ossos esmagados, crânios estalando entre os dedos, peles sendo arrancadas com os inimigos ainda vivos, gritos abafados por sangue. O cheiro. O calor. A textura viscosa cobrindo minha pele. Eu era a encarnação do fim deles. Implacável. Impiedoso. Dominador até o último suspiro dos que se opusessem a mim.
Foi quando senti.
Um aroma familiar adocicado. Fraco. Singelo. Mas presente. Um sopro no meio do caos. Meus sentidos se aguçaram atentos. Mantive a cabeça do inimigo pressionada contra o solo com uma das mãos, e lentamente, ergui o olhar.
Lá estava ela.
Uma silhueta. Pequena. Os cabelos platinados emolduravam seu rosto abatido. Os olhos amarelos, intensos, cravados em mim. Havia dor em suas íris, neles. Tristeza. Incertezas. Senti tudo de uma vez. Uma onda avassaladora de emoções que me atravessou como uma lâmina quente. Ela estava sofrendo. Muito. E havia mais...
Três outros cheiros se mesclavam ao dela. Confusos. Misturados. Camuflados. Aquilo não era natural.
"Ela precisa de nós." Fenrir grunhiu, selvagem, tomando meu olho esquerdo por completo. "Há mais. Parcialmente desperta."
— Pequena? — Minha voz saiu quase em um sussurro, rouca, grave. Dei um passo.
E então ela desapareceu. Como fumaça. Como se nunca tivesse estado ali.
Symon se aproximou, franzindo o cenho, o olhar seguindo a direção para onde eu fixava os olhos.
— Alfa, viu algo? — ele perguntou, farejando, mas não captando nada. — Não sinto mais inimigos próximos.
Soltei o ar, devagar. Um sorriso curvou meus lábios. O primeiro verdadeiro em meses.
— Ela vive. — Disse, com convicção. E então, soltei o corpo do inimigo e ergui o rosto para o céu, liberando um rugido. Um grito primitivo, poderoso, que fez a terra vibrar sob nossos pés. — Eu vou encontrá-la.
POV: JAQUELINE
Deixei Airys com os bebês e a enfermeira, indo me limpar, tomar um café reforçado e procurar pelo idiota do meu irmão. Assim que saí do quarto, lá estava ele, sentado ao lado da porta. Nem sequer havia se afastado.
— Babaca. — Resmunguei, chutando sua perna. — Venha, precisamos conversar.
— Nasceram todos saudáveis? — Colen se levantou devagar, o olhar fixo na janela do quarto onde ela dormia exausta. — Airys está bem?
— O caçula... Bem, precisamos conversar. — Falei, o puxando pelo braço. Fomos direto para a copa. Peguei uma xícara fumegante de café e me joguei na poltrona. Acham que só as mães se esgotam durante o parto? Experimentem ser a médica responsável por três ao mesmo tempo.
— Eu já sei o que você vai dizer... — Colen bufou, se servindo de café e se sentando à minha frente. — Me excedi, não deveria ter dito aquilo, devia ter seguido o plano.
— Você está se envolvendo demais. — Suspirei, balançando a xícara de um lado para o outro, sentindo o calor atravessar minha pele. — Tem sentimentos por ela.
— Você também. — Ele rebateu com firmeza, cutucando meu pé com o dele sob a mesa. — Realmente a considera uma amiga. Foi por isso que a protegeu com tanta ferocidade.

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