POV: ORION
Alec fungou, e as lágrimas caíram mesmo que ele tentasse segurar.
— Eu não quero chatear a mamãe. — murmurou. — Mas... também não quero continuar assim. Eu... esse colar... me sufoca. Eu não me sinto seguro com ele. Só... só mais preso. E eu não queria preocupar ela mais do que já tá.
— Tudo bem... temos um combinado. — rosnei baixinho, forçando o som a ficar preso na garganta. A mamãe sempre dizia que a gente não podia rosnar na escola, que chamava atenção. Mas era difícil me controlar quando algo me incomodava.
— Na hora do recreio — continuei olhando nos olhos dos dois — vamos até aquele lugar secreto, tiramos os colares, vemos o que acontece e depois colocamos de volta. Ninguém pode saber.
— Tá bem. — Theron assentiu primeiro, com um sorrisinho travesso. Alec hesitou, mas acabou fazendo que sim com a cabeça, apertando o colar em volta do pescoço como se quisesse arrancar.
Fomos para as aulas. Eu tentei prestar atenção, mas era tudo tão lento. Repetitivo. Chato. Já tínhamos pulado dois anos e ainda assim parecia que nos tratavam como bebês. Eu e meus irmãos entendíamos as coisas mais rápido. Nossa cabeça funcionava diferente. Isso nos deixava impacientes, e... estranhos para os outros.
Quando o sinal do recreio tocou, me levantei da cadeira na mesma hora. Fui até a porta da sala e logo vi Theron se aproximando com o mesmo brilho sapeca no olhar.
— Onde está o Alec? — perguntei, olhando para trás dele e não vendo o irmão.
— Passei na sala dele, mas ele já tinha saído. — Theron deu de ombros como se não fosse nada demais. — Deve ter ido direto pro nosso lugar secreto.
Minha barriga gelou. Franzi o cenho.
— O Alec nunca iria sozinho para lá, você sabe disso. Ele tem medo de lugares escuros... e ainda mais sozinho.
Theron mordeu o lábio. Ficou sério de repente.
Fechei os olhos, inspirei fundo pelo nariz. Era quase impossível rastrear qualquer coisa com esse colar maldito, mas eu sempre conseguia encontrar o cheiro do Alec. O cheiro das emoções dele. Um rastro fraco... denso, pesado... e roxo. Medo. Não, pavor. Ardia como se tivesse algo errado de verdade. Meu coração começou a bater mais rápido.
— Vem comigo. — puxei o braço do Theron com força, e corremos pelos corredores até o prédio em reforma do colégio.
O andar estava interditado, ninguém podia ir lá. Era escuro, cheio de entulhos e paredes sem pintura. Descemos as escadas rangendo baixinho. Meus pelos dos braços se arrepiaram. Theron também ficou tenso, senti seu cheiro mudar — ficou mais agressivo. Ele sempre reagia assim quando algo ameaçava alguém que ele amava.
Paramos ao pé da escada. Vozes. Risadas. Baixas, mas maldosas.
— Por que está chorando? — disse uma voz masculina desconhecida. Tinha um tom debochado, frio. — Está sem a proteção dos seus irmãos, não é mesmo? Não é tão corajoso agora, não é?
— P-para com isso... eu nunca fiz nada pra vocês. — era a voz do Alec. Tremia. Chorava. Minha respiração parou por um segundo.
Fechei os punhos tão forte que senti minhas unhas pressionarem a palma. Theron rosnou ao meu lado, baixo, mas real. Senti a mesma fúria subindo dentro de mim. Algo selvagem.
Desci os últimos degraus devagar, os olhos fixos na direção da voz. O cheiro agora era claro. Alec. Medo. Lágrimas. E outro cheiro... estranho. Quase podre. Forte. Feroz.

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