POV: AIRYS
Levou um tempo até a tontura passar por completo. Voltei à rotina. Eu precisava voltar. Me agarrar àquilo que ainda me fazia sentir inteira. A medicina. As cirurgias. Salvar vidas era, de algum modo, o que me impedia de despencar completamente no abismo do que vivia aqui dentro.
O hospital estava agitado. A nova leva de refugiados trouxera casos críticos. Fui direto para a sala esterilizada, sem tempo para respirar. Coloquei a máscara, vesti os aventais, me posicionei.
Era estranho..., mas eu gostava daquilo. Ali, naquele ambiente controlado, tudo era mais simples. Técnicas, precisão, ritmo. Eu não precisava pensar nele. Não precisava sentir o vazio que ele deixava. Nem o calor que ainda queimava de cada toque seu. Mesmo ausente, Daimon continuava me invadindo nos momentos mais íntimos. Sonhos. Devaneios. Em cada respiração solitária, era como se ele me encontrasse. A lembrança dos seus beijos, do seu cheiro, do seu domínio absoluto sobre meu corpo e minha mente me consumia.
Algo grunhiu dentro da minha cabeça. Um som abafado, primal, ansioso. Suspirei, controlando a respiração, mordendo o interior da bochecha.
— Bisturi. — Solicitei com firmeza. O paciente à minha frente era um caos. Órgãos lacerados, múltiplas hemorragias. Era quase impossível acreditar que ainda respirava.
— Sucção. Vamos lá, foco. Ele está sangrando rápido demais. Pressão, por favor.
A equipe reagiu. Começamos o procedimento, mãos precisas e rápidas.
A porta se abriu devagar. Vi o movimento de canto de olho. Alguém entrou.
Jaqueline.
Estava de máscara, mas seus olhos diziam mais do que qualquer palavra. Eles vasculharam a sala, pararam por um segundo no paciente... e então, se fixaram em mim.
Algo ali me incomodou.
— Veio me vigiar? — Provoquei, sem tirar os olhos do corte. — Já disse que estou melhor.
— Não é isso. — A voz dela vacilou, trêmula. Fui obrigada a olhá-la por cima da máscara. Franzi o cenho.
A tensão no ar era palpável.
— A cirurgia vai demorar? — Ela perguntou, forçando uma firmeza que simplesmente... não colava.
— Se o paciente colaborar, finalizo dentro de uma hora. — Respondi, ainda analisando suas feições. — Está tudo bem?
— Está sim... só burocracias. Você sabe como é. — A resposta veio com um tom ensaiado, falso. Mas foi o tremor quase imperceptível nas mãos dela que me alertou. Algo estava errado.
Muito errado.
— Quando terminar, me encontre na minha sala. É importante. — Ela disse firme, mas seus olhos... seus olhos não sustentavam.
Arfei baixo, sentindo um arrepio percorrer a base da nuca. Uma onda de alerta estourou dentro de mim. Meu instinto gritou. A mesma sensação que tive quando estava prestes a ser caçada.
Assenti lentamente à presença de Jaqueline, estranhando cada detalhe. Ela nunca aparecia em minhas cirurgias. Nunca. Dizia que não era "sua praia", que preferia “não se sujar de sangue”. Ver aquela mulher ali, parada, observando, me despertou mais do que desconfiança. Me acendeu todos os alertas.
A cirurgia se estendeu além do previsto. O paciente sangrou mais do que o esperado, mas sobreviveu. Terminamos o último ponto, e fui direto lavar as mãos, esfregando com força, como se pudesse tirar da pele o mal-estar que me grudava na alma.
Fui ao armário, peguei o celular e, ainda com a adrenalina da sala de operação, segui pelo corredor silencioso em direção à sala de Jaqueline. Os corredores estavam vazios demais. Silenciosos demais.
Assim que parei diante da porta, o celular vibrou em minha mão. A tela exibia várias chamadas perdidas do colégio das crianças.

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