POV: AIRYS
Gritei, socando a mesa com força. O estrondo ecoou pela sala, um estalo seco, madeira rangendo sob o impacto. Um rosnado escapou do fundo da minha garganta, feral. Meu peito arfava, subia e descia em descompasso. A pulsação latejava na minha nuca. Meus músculos estavam tensos, prontos para romper.
— O paciente estava aberto na mesa... Você não podia simplesmente sair... — tentou se justificar, mas a voz dela era insignificante diante do que eu sentia.
— São os meus filhos, cacete! — explodi novamente, balançando a cabeça, os olhos marejados. Agarrei o encosto da cadeira com força, como se aquilo pudesse me ancorar. — Eu devia estar com eles! Eu devia protegê-los! Ele não vai ficar com eles assim... não vai!
— O que está dizendo, Airys? — Jaqueline se levantou de súbito, preocupada, tentando me conter.
— Eu vou atrás deles. — declarei com a raiva queimando sob minha pele. — Vou trazer meus filhos de volta.
— Está maluca? — Ela tentou se aproximar, tocando meus ombros com força. — Ele vai te matar, Airys! Quando souber que você passou todo esse tempo escondida... e escondendo os filhos dele...
Me livrei das mãos dela com um movimento brusco. A pele ainda formigava onde ela me tocou, como se o corpo rejeitasse o contato.
— Se Daimon estiver com meus meninos, então eles precisam de mim. — rosnei, os olhos fixos nela. — Se Fenrir se manifestar e eu não estiver lá para protegê-los? Eu sou a única coisa entre a fera... e meus filhos!
— Amiga, por favor, seja racional. Você sabe... — a voz dela vacilou, quase suplicante. — Sabe que ele nunca vai te deixar partir de novo. Nunca.
— Talvez seja a hora da Luna do Alfa Supremo retornar para ele! — Cerrei os punhos, sentindo as unhas cravarem nas palmas das mãos. O sangue pulsava alto nos meus ouvidos.
O peito ardia com a fúria que crescia a cada batida do meu coração.
— Eu vou atrás dos meus filhos! — Falei determinada, virando para sair.
Mas um incômodo súbito me atingiu no pescoço. Uma picada aguda. Levei a mão instintivamente ao local e toquei a pele quente. Meus dedos encontraram um pequeno ponto úmido. Virei, e vi Jaqueline... a falsa desgraçada com uma seringa ainda na mão.
Cambaleei. O chão parecia girar debaixo dos meus pés.
— Jack... o que você fez? — minha voz saiu fraca, arrastada. Dei dois passos trôpegos em direção a ela, tropeçando em mim mesma.
Ela recuou um passo, os olhos cheios de lágrimas.
— Desculpa, Airys — ela soluçou. — Mas eu não posso deixar você voltar pra Tal’Dorei. Você não pode voltar para o Supremo.
O veneno se espalhava rápido. A língua pesava, os músculos já não me obedeciam. Me forcei a ficar de pé, lutando com o próprio corpo.
— Por que... está fazendo isso? — sussurrei, quase sem força. — Preciso... proteger... meus filhos...
— Eles não te pertencem mais, Airys... — ela murmurou no meu ouvido, quando caí de joelhos, o corpo cedeu com um tremor. — Nunca pertenceram... descanse... vai doer menos assim.
— Sua filha da p...
A frase morreu na minha boca. A escuridão me tomou de uma vez, densa, sufocante, me arrastando para o fundo de um abismo.
Mas eu ainda ouvia.
Ao longe, abafados e distantes... choros. Soluços infantis. Medo.

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