POV: AIRYS
Encontramos as irmãs Celestiais paradas à porta, nos esperando como se já soubessem que estávamos prestes a chegar. A aura ao redor delas era tranquila e poderosa, como se a própria floresta se curvasse à sua presença.
Sem dizer uma palavra, elas nos guiaram para dentro da clareira coberta por musgos e flores que pulsavam sob a luz da lua. O ar ali parecia mais leve, como se o mundo parasse só para aquele momento.
— Sente-se aqui, filha da Lua. — disse uma delas, apontando para o centro do círculo.
Obedeci, dobrando as pernas em posição de lótus sobre a relva úmida e viva. Senti a energia da terra vibrar sob meu corpo, acolhedora, envolvente.
Daimon ajoelhou-se ao meu lado, firme, imponente. Sem dizer uma palavra, pegou minha mão e a levou aos lábios.
O gesto foi suave. Um beijo no dorso. Rápido. Quase involuntário. Mas carinhoso. O tipo de carinho bruto, silencioso e instintivo de quem protege com a alma.
— Airys — falou a irmã cega, com a voz doce e firme, como uma prece antiga. — Vamos ajudá-la a encontrar seus filhos através do elo mais poderoso que existe... o elo de mãe e filhote.
— Não há absolutamente nada mais forte do que o amor de uma mãe por seus filhos. — completou a outra com um sorriso sereno. — Quero que se concentre no dia em que trouxe seus trigêmeos ao mundo. No instante em que os ouviu pela primeira vez...
Fechei os olhos antes mesmo de ouvir o resto.
— Concentre-se na dor... no medo... e depois... no alívio. Nos primeiros choros. No primeiro toque. E diga tudo o que sentir.
“Eu me lembro de tudo.” A voz de Rielly soou embargada, cheia de emoção. “Vamos encontrá-los.”
Assenti, engolindo seco. Meu peito apertava de uma forma que era impossível explicar. Não era apenas saudade. Era necessidade vital. Era a ausência do que mais importava.
Respirei fundo, sentindo o ar frio encher meus pulmões enquanto apertava com mais força a mão de Daimon. Ele a envolveu ainda mais, passando o polegar sobre minha pele em um gesto lento, contínuo.
Abri um sorriso fraco de canto. E então, fechei os olhos com força.
Me deixei levar.
O cheiro do sangue. O grito do meu corpo rasgando. As lágrimas escorrendo. A primeira vez que ouvi Orion. O soluço ofegante de Theron. O silêncio tenso antes do choro frágil e doce de Alec.
Meus lábios tremeram. O coração falhou uma batida. E então, tudo veio de novo.
— Foi tão rápido... — minha voz saiu num sussurro fraco, quase infantil. — Em um minuto, senti a bolsa estourar... no outro, o medo tomou conta de mim.
As palavras saíam devagar, arrastadas pelas lembranças que invadiam cada canto da minha mente.
— As dores vinham em ondas. E elas não me davam trégua. Cada vez mais próximas, mais fortes... mais desesperadoras. — estremeci, sentindo meu corpo arrepiar com a memória física daquela dor. — Naquele momento, tudo em mim gritava por Daimon. Eu o queria ali. Eu precisava dele. Estava apavorada. Sozinha. Sem saber se conseguiria trazê-los em segurança para este mundo.
Meu peito subia e descia com dificuldade. O ar parecia mais denso.
— Mas você conseguiu, minha pequena... — Daimon ressoou grave como um abrigo.
O tom baixo tranquilo, com aquela firmeza que só ele tinha. A que não pedia permissão. A que não deixava dúvidas. Seu polegar seguia acariciando minha pele, como se me ancorasse ali, no presente.

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