POV: AIRYS
Segui em direção à casa, o coração ainda apertado, a mente fervendo, e o corpo… bom, o corpo exausto, mas inquieto. O mais bizarro, e olha que minha vida é um show constante de bizarrices, foi ver a irmã cega parada na porta, segurando uma garrafa de bebida e dois copos de vidro, como se já soubesse que eu apareceria.
Mantive os olhos nela, parando a sua frente, desconfiada.
— Mas... como...? — Minha voz saiu em um sussurro, engasgado de perplexidade, enquanto ela estendia a garrafa na minha direção.
Os olhos, opacos como neve congelada, encaravam... não, atravessavam minha alma. Ela ergueu o queixo com uma precisão assustadora, me localizando sem nenhum erro.
— Sinto a tristeza... e a dor daquele jovem rapaz desde o momento em que colocou os pés nesta casa. — Sua voz saiu baixa, suave, mas carregada de um peso que me fez estremecer.
Arqueei uma sobrancelha, segurando o copo com a ponta dos dedos, meio sem saber se isso era uma oferenda, um aviso ou uma maldição disfarçada.
— É uma pena... — Ela virou ligeiramente a cabeça, tombando-a como se me analisasse — que ele não possa ver... o que eu vejo.
"Mas ela é cega... O que, diabos, ela poderia ver?", Rielly rosnou dentro de mim, bufando como se fosse uma loba debochada, farejando o mistério no ar. A risada da feiticeira veio de imediato, rouca e divertida, como se ela tivesse escutado cada pensamento.
— Há muito mais do que os olhos podem enxergar, futura Luna... — Ela estalou a língua, e um arrepio subiu pela minha espinha como se dedos invisíveis me tocassem. — Aquele guerreiro... — Ela apertou os lábios, franzindo o cenho tateando com as mãos ao vento. — ainda tem muito a viver... e muito a aprender.
O silêncio se fez pesado, e eu prendi o ar quando ela respirou fundo, quase como se buscasse forças no próprio cosmos.
— É fato... — Ela balançou lentamente a cabeça — que a Deusa Lua não destinou a ele uma companheira que fosse digna... do seu amor.
Minhas mãos apertaram o copo com mais força. O peito travou. O estômago virou.
Ela inclinou o rosto, como se me olhasse diretamente dentro da alma.
— Mas... — Sua boca se curvou em um sorriso enigmático, que beirava o cruel. — Não é só de uma forma que se conhece... o amor da nossa vida.
— O que exatamente quer dizer com isso? — questionei, arqueando a sobrancelha, sentindo meu coração acelerar, enquanto meus olhos se arregalavam, refletindo a confusão que tomava conta da minha mente. — Está falando de... uma segunda chance?

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