POV: AIRYS
Daimon caminhou até nós com passos lentos e seguros, parou atrás de Theron, pousou a mão grande e firme na cabeça dele, bagunçando os cabelos do garoto com um gesto que parecia bruto, mas guardava um cuidado escondido.
— Theron... — Sua voz ecoou baixa e grave, arrastando minha pele num arrepio involuntário. — Sua irmã precisa aprender a se defender. Isso não tira o seu papel. Só a torna mais forte. Mais preparada.
Theron ergueu o olhar, hesitando. Seus lábios se apertaram e ele assentiu devagar.
Daimon olhou para Alec, e a intensidade do olhar dele fez o ar do ambiente pesar um pouco mais.
— Você é uma Suprema. Com sangue divino. — falou sério, sem suavizar o tom. — Precisa aprender a ser uma princesa de guerra. Não para atacar. Mas para não se curvar diante de ninguém.
Era verdade.
Alec carregava um alvo enorme nas costas, não apenas por causa de Raiker, mas também por algo muito maior... pela Deusa Lua. Pela linhagem. Pelo sangue que corre em suas veias e que ela ainda nem entende.
O medo nunca saía do meu corpo. Dormir era um luxo raro. Às vezes, despertava no meio da madrugada ofegante, com o coração acelerado, os olhos arregalados procurando por ela. E lá estava minha pequena... encolhida, respirando devagar, agarrada ao próprio cobertor, como se o mundo não a cobrasse nada.
Mesmo assim, eu me erguia da cama, puxava uma cadeira, me sentava ao lado dela e ficava ali. Só observando. Só... protegendo. Como se aquele simples gesto pudesse afastar todo o mal.
Minhas mãos tremiam às vezes. Minhas costas doíam. Mas era o mínimo. Porque enquanto eu respirasse, ninguém tocaria nos meus filhos.
“O solstício se aproxima, Airys...” sussurrou Rielly, fungando em minha mente, como se quisesse me aninhar com o próprio corpo. “Vamos mantê-los seguros. Não vamos permitir que toquem em nossos filhos... nem que levem nosso companheiro.”
Fechei os olhos por um instante, absorvendo aquelas palavras. O peso, a promessa, o instinto feroz.
— Eu sei. — sussurrei em resposta, baixinho, só para ela. — Eu sei...
Respirei fundo, tentando acalmar a ardência atrás dos olhos. Era como se uma linha fina me atravessasse o peito, doía e fortalecia ao mesmo tempo.
— Não quero que machuquem ela de novo, papai. — Theron ergueu o rosto, os olhos úmidos, brilhando com uma mistura de raiva e dor que não combinava com sua idade. — Por isso, vou ficar mais forte que você. Vou derrubar aquele lobo malvado. Ninguém mais vai se ferir. Nunca mais.
Meu peito apertou no mesmo instante. A voz dele soou firme, mas havia um tremor leve ali. Um resquício do medo que ele tentava esconder atrás da promessa.
Daimon se inclinou um pouco, encarando o filho com intensidade. Os olhos terrosos escureceram e, por um segundo, cintilaram em vermelho. Um brilho de orgulho selvagem tomou conta da expressão dele.
— Hunf... — resmungou com aprovação, depois endireitou a postura com aquele ar de autoridade que preenchia qualquer espaço. — Vamos fazer um acordo.
Franzi o cenho, desconfiada. Ele tinha aquela expressão de quem já sabia que ia provocar. E adorava isso.
— Deixe aquele lobo comigo. — disse, firme, com voz baixa e imponente. — E você e Orion cuidam da Alec… dos futuros pretendentes.
Alec arregalou os olhos, confusa. Orion imediatamente cruzou os braços, parecendo já ter aceitado o cargo. Theron soltou um “Ah, sim!” animado, como se tivesse acabado de receber uma missão épica.
Eu, por outro lado, arregalei os olhos e dei um passo à frente.

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