POV: DAIMON
Rugi minha certeza, a garganta queimando com a força do som, como se gravasse seu nome em minha essência. Ela seria para sempre minha eterna Coelhinha, não importa o que viesse depois.
Um calor úmido escorreu pelo meu rosto, o gosto salgado preencheu minha boca e queimou meu orgulho. Dei um passo para trás, sentindo cada músculo protestar, como se minha alma fosse arrancada em pedaços. Mais um passo... e outro...
— Não, Daimon! — O grito dela me atingiu como um impacto físico, seus olhos brilhando de lágrimas, o corpo tremendo, a voz suplicante. — Por favor, não me deixe!
Sua dor me despedaçou.
Eu estava chorando, sim. As lágrimas queimavam minha pele como fogo. Chorava por perder demais, por sentir tanto ao ponto de não suportar. Chorava por saber que nunca mais poderia mergulhar no cheiro dela, ouvir seu suspiro preso entre meus beijos, segurar sua mão com força e sentir o calor do seu toque. Chorava porque não ouviria meus filhos me chamando, não veria seus sorrisos, não estaria aqui para protegê-los, para estar ao lado dela no momento que mais precisaria de mim.
Meu peito se apertou, enquanto cada lembrança se tornava a pior dor que eu já havia enfrentado.
— Me perdoe. — Minha voz saiu áspera, quase um rugido preso na garganta, rasgando o silêncio como um último grito de amor. Sem hesitar, rompi a barreira, abrindo os braços, me entregando completamente à escuridão, à maldição que me consumia. — Fujam!
A dor atravessou meu corpo como um raio, cada músculo se contorcendo, mas eu não recuei. Se era esse o preço para que ela e nossos filhos vivessem, eu pagaria.
As garras se estenderam, afiadas, enquanto minhas presas rasgavam a carne da própria boca ao crescerem. Senti meus ossos se quebrando e se alongando de forma cruel, cada estalo reverberando como um aviso de que não havia mais volta. Fenrir silenciou. A voz dele desapareceu como se tivesse sido engolida pelo abismo, e o que restou foi apenas o eco sombrio do monstro que agora me dominava, desejando uma única coisa: “Sangue e morte.”
O ar carregado trouxe um odor podre, metálico, que reconheci na mesma hora. Um cheiro antigo, marcado em minha memória. Aquele cheiro era dele.
Raiker.
Minha respiração se tornou um rosnado constante, a escuridão pulsando em minha mente, e a raiva crescente me fez tremer. Eu poderia ser arrastado direto para o inferno, mas não iria sozinho. Eu levaria meu precioso irmão gêmeo comigo.
— Raiker! — Minha voz saiu rouca e monstruosa, quase irreconhecível. — Hora da nossa reunião em família, irmãozinho! — Rugir alto, estridente, sentindo a fera dentro de mim se deliciar com a promessa de sangue.
— Como ainda está consciente? — Ouvi a voz de Raiker em algum ponto à frente, mas tudo ao meu redor era escuridão. Densa. Viva.
Eu não conseguia vê-lo, apenas a escuridão me engolia, sufocante. Os cochichos na minha mente eram altos demais, palavras frias, sanguinárias, tão sombrias que rasgavam meu controle.
Os cochichos na minha mente eram altos demais. Frios. Sanguinários. Sombrios. Uma centena de vozes sussurrando em línguas que não pertenciam a este mundo, arranhando por dentro do meu crânio.
“Destrua tudo. Rasgue-o. Sangue. Carne.”
— Aaah... agora entendi, irmãozinho... — A voz dele escorria com aquele sarcasmo nojento, como veneno. — É apenas o seu desejo patético de protegê-los que te mantém preso a esse fio podre de consciência... Interessante.
Meu corpo latejava. Sentia a pele rasgar em ondas, os músculos pulsarem com força bruta. Não havia controle. Apenas instinto.
— Daimon, você me ouve? — A voz dela.

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