POV: DAIMON
“Alfa... não consigo te alcançar!” Fenrir rugiu dentro de mim com uma fúria desesperada, sua voz abafada como se estivesse submersa em escuridão. “Que ódio... que sede... preciso matar, preciso caçar! Está tudo queimando!”
A pressão latejava em meu crânio como se garras estivessem dilacerando minhas memórias. Cada músculo se contraía em espasmos violentos, os ossos estalando em mutação forçada. A dor não era apenas física, era ancestral. Era o colapso entre o homem e o monstro.
— Fenrir, não ceda. — Gritei para dentro da minha própria mente, mas a voz saiu abafada, distante... e inútil. Era como gritar dentro de um abismo sem fim. O som da minha própria respiração se misturava ao rosnado pesado que ecoava de meu peito.
Então eu a vi.
Airys.
Ajoelhada no centro do círculo, com o corpo curvado, as mãos abertas, cortadas, o sangue escorrendo por seus pulsos, alimentando o solo sagrado. Seus cabelos estavam colados na pele pela umidade do suor, o peito arfava em desespero, mas os olhos... os olhos dela estavam fixos em mim. Determinados. Quebrados.
— O que está fazendo, pequena...? — Minhas palavras saíram como um rosnado rouco, carregado de medo e confusão. O cheiro dela... o cheiro da minha companheira... estava misturado ao ferro do sangue e algo mais. Algo novo. Algo que pulsava no centro do círculo como uma oferenda viva.
“Sangue... preciso de sangue...” A voz de Fenrir reverberava como um trovão dentro da minha cabeça, carregada de fúria e desespero. Ele rosnava, selvagem, tomado por algo que ultrapassava qualquer traço de razão.
Seu corpo, em minha mente, crescia de forma grotesca, músculos tensionados, pelagem negra se eriçando. Ergueu-se sobre as patas dianteiras, imponente, monstruoso, um inferno vivo.
“Não podem me conter! Não se prende uma fera... um demônio... um lobisomem!” Sua voz explodiu, densa, carregada de ódio e um medo sombrio que se infiltrava até meus ossos.
Airys caiu ao chão com um baque seco, meu peito ardeu ao vê-la assim. Minha visão oscilava, nublada pela escuridão que se infiltrava em tudo ao meu redor. A via apenas em fragmentos: os contornos do corpo delicado contra o chão frio, os cabelos espalhados, a respiração entrecortada.
Algo estava errado. Muito errado.
O gosto metálico do medo se instalou na minha língua. Senti cada gota da sua angústia, o pavor dilacerando-a, o desespero queimando minha alma.
Dentro de mim, Fenrir se debatia como uma besta enjaulada, chocando-se contra as grades da minha sanidade, urrando para escapar. Cada investida sua era uma explosão de dor que me fazia arquejar. O poder pulsava em minhas veias, ameaçando despedaçar tudo.
— Droga. — Rosnei, ofegante, o ar queimando em meus pulmões. Caí de joelhos, as mãos tremendo como se fossem feitas de fogo. Cada fibra do meu corpo gritava em dor, a pele rasgando, os ossos latejando com a mutação forçada que me dilacerava por dentro. Estendi a mão, desesperado para tocar a dela, para arrancá-la daquele sofrimento. Quando meus dedos alcançaram o vazio entre nós, vi o próprio horror: estavam em carne viva, garras surgindo sob a pele.

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