POV: AIRYS
Um vulto negro cruzou rapidamente meu campo de visão, sumindo entre as árvores. Aquele cenário não me era estranho. A floresta escura. A cama no meio dela.
— Já tive esse sonho antes. — murmurei, girando o pescoço para todos os lados, atenta. — É a fenda de ligação do elo?
O ar estava denso, carregado, e senti a presença dele antes mesmo de vê-lo. O peso daquele olhar me arrepiou. Me virei para a direção de onde vinha a sensação e o encontrei.
— Fenrir... sou eu. Sua companheira. — chamei, a voz firme apesar da tensão no meu peito.
Ele não respondeu. Apenas se manteve imóvel por um instante, os olhos vermelhos fixos em mim, até que virou e disparou para longe, rápido demais para que eu o seguisse.
— Espere! — dei um passo, mas a escuridão engoliu sua silhueta.
Corri atrás dele na forma humana, o fôlego queimando no peito. Não sentia Rielly. Não havia transformação. Meu corpo e minha essência estavam fracos demais.
Subi até o topo da montanha, o vento cortando minha pele. Meus passos hesitaram quando reconheci o lugar. O mesmo em que, um dia, eu havia ido até ele para me entregar.
Ele estava ali. Sentado na beirada, o corpo imponente contra o horizonte, como se nada pudesse movê-lo.
— Daimon? — chamei, a voz trêmula, o ar escapando entre os lábios. Senti os olhos arderem.
Ele se virou devagar na minha direção, cada movimento carregado de peso. Um sorriso curto, quase dolorido, tocou seus lábios, e sua cabeça tombou ligeiramente para o lado.
— Não deveria estar aqui, coelhinha. — a voz veio firme, mas baixa, com aquele tom que prendia minha atenção. O olho esquerdo estava tomado pelo negro da maldição, as veias escuras se espalhando como raízes pela pele. O direito ainda mantinha um brilho fraco nos tons terrosos. — Por que é tão teimosa?
— Você jamais desistiria de mim, então não espere que eu faça isso. — mordi os lábios, avançando devagar, sentindo a tensão se espalhar pelo ar. O corpo dele enrijeceu, um rosnado baixo escapou de sua garganta. — Minha lealdade está no lugar certo, e sempre estarei aqui por você.
— É tarde demais para mim! — rugiu, a voz carregada de fúria e algo mais que queimava por baixo.
Antes que eu pudesse reagir, algo enorme e rápido saltou sobre mim. Fenrir. Seu uivo ecoou, e em um segundo sua sombra me cobriu.
Daimon avançou sem hesitar, agarrando o lobo no ar, prendendo a mandíbula dele com uma força brutal. O choque do impacto fez meus pés deslizarem para trás. Fenrir lutava, tentando alcançar minha garganta, mas Daimon mantinha o controle, os músculos dele tensos e rígidos sob o esforço.
— Airys, desperte! — ordenou, a voz firme e autoritária. — Agora.

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