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A Redenção do Ogro romance Capítulo 89

Camila Coelho

Começo a ouvir um som de bip que não cessa. Que som irritante que me faz sair do mundo dos sonhos. Estava tão bom!

Lá não tinha problemas no coração. No meus sonhos eu era feliz, tinha um Bernardo protetor me dizendo que me amava e que queria passar a vida toda do meu lado.

Aqui eu sei que eu não tenho o Bernardo, e de quebra tenho um coração defeituoso que não faz o seu trabalho corretamente. Como será que ele anda? Pela última coisa que eu me lembro, eu senti uma dor chatinha ao acordar e ela só foi aumentando durante o dia.

Até que…

Bernardo…

Eu sonhei com ele ou ele esteve no meu ateliê?

Claro que não... Foi um sonho! Nunca que Bernardo me falaria tantas coisas bonitas.

No sonho ele me disse que eu era a mulher de sua vida. Foi tão bom ouvir isso…

Passo um tempo ainda com os olhos fechados, pq estou cansada é é um esforço enorme ter que abrir eles.Não quero abrir... Quero descansar mais um pouco…

Sinto minha boca seca, eu preciso beber água. Mas isso também pode esperar. Quero voltar para o meu sonho…

Tento mexer meus braços e sinto uma dor aguda, parece que eu não os mexo a séculos. O corpo todo dói. Gemo de dor… Onde estou?

-Ei... Você acordou... Que bom!

Escuto uma voz familiar...Bernardo? Ele está aqui?

Tento abrir os olhos mais uma vez... Mas eu estou tão cansada e parece que há areia neles. Gemo de novo…

-Está tudo bem?

Ouço novamente… Como é bom ouvir essa voz tão próxima de mim. Aos poucos consigo abrir os olhos. A claridade fere e a sensação de areia nos olhos aumenta. Tento levantar os braços novamente e não consigo.

-O quê... O que... houve? -minha voz sai rouca e baixa.

-Você passou mal... Está no hospital... Está sentindo algo?

Ele parece ansioso! Merda!

Se passei mal e ele está aqui... É porque ele sabe... Minha memória vem a jato…

Agora ele sabe…

Eu não consegui esconder dele…

Começo a ouvir o bip do aparelho ficar mais rápido.

-Ei... Você não pode ficar nervosa. Está tudo bem , vai ficar tudo bem…

Eu confirmo com a cabeça.

-Oi doutor. -vejo uma moça simpática chegando perto e olhando os aparelhos.

-Chama o Arthur pra mim... Ela acabou de acordar…

Ela confirma e sai.

Olho para o homem da minha vida. Será que eu sonhei com ele dizendo que eu sou a mulher da sua vida ou foi verdade?

Se sonhei, quero voltar para o sonho.

O que me lembra que se eu estou aqui no hospital cheia de fios, é porque minha situação não é nada boa. Eu preciso dizer a ele antes de morrer, eu preciso.

Aperto a mão dele que está conectada à minha. Ele está com olheiras profundas e os olhos avermelhados. Há quanto tempo estou aqui?

-Eu preciso te dizer uma coisa…

-Não precisa, passarinho...

Conversaremos, mas não agora... Você só precisa se acalmar. Não faça seu coração acelerar…

-Então deixa eu te falar... -Minha voz sai rouca...-A quanto tempo estou aqui?

-Dois dias…

-Ok! Eu estou morrendo?

Ele olha pra mim respira fundo, fecha os olhos e depois abre novamente.

-Não passarinho. Aliás, você está proibida de fazer isso…

-Ok!

-E eu estou falando sério... -Eu sorrio. -Você está amando me ver desesperado, né?

-Não bebezão.

Ele ri e se abaixou beijando a minha testa.

-Você não vai morrer... Eu não permito…

-Ok! Você me disse que eu era a mulher da sua vida?

Ele ri e revira os olhos.

-Disse...

-Não era um sonho?

-Não. -Ele funga olhando para as nossas mãos conectadas.

-Então eu preciso dizer algo...

Minha voz sai baixa e trêmula. Ele se abaixa para ouvir melhor.

-Fala…

-Você é o homem da minha vida! -Ele ri... E começa a chorar...-Não chora bebezão…

Ele limpa os olhos e sorri.

-Eu não estou chorando.

Eu sorrio.

Bom... Eu disse... Agora eu posso morrer em paz…

-Eu estou cansada, Bê…

-Então descanse... Vou estar aqui quando acordar…

-Ok!

Sinto meu olho pesando. Ainda escuto a voz do Arthur entrando no quarto, mas não vejo mais nada.

***********

Acordo novamente com a secura na boca.

Eu preciso beber água.

Dessa vez não é tão difícil acordar e abrir os olhos. Será que eu estou sozinha?

A primeira coisa que vejo é ele deitado com a cabeça ao lado da minha cama, segurando minha mão.

E sorrio.Estou menos cansada do que a última vez... Isso deve ser bom, não é?

Eu o observo mais um pouco dormindo serenamente ao meu lado. Me distraio com seu cabelo caindo em sua testa. Bernardo é o homem mais lindo que vi na vida e é muito agradável acordar sabendo que ele não me deixou sozinha.

Escuto uma pessoa falando ao meu lado e viro a cabeça para ver a enfermeira sorrindo.

-Bom dia querida!

-Bom dia!

-Ele está sentado nesta cadeira a três dias. Não saiu nem para comer... E olha que o Dr. Arthur tentou... Foi vencido pelo cansaço.

-Estou aqui há três dias?

-Sim... Você precisava descansar…

Eu confirmo. Quando não contei para ele, era para evitar isso... Mesmo não sabendo de seus sentimentos por mim, eu sabia que ele faria o mesmo… se sacrificaria. Ele era esse tipo de pessoa, mas agora as coisas são diferentes.

Eu sabia que meu amor era correspondido. E se ele sentia o mesmo que eu, eu sabia que não tinha como afastar ele de mim.

Como será que ele lidou com a minha mentira? Será que ele estava com raiva?

Passo a mão pelo cabelo dele, enquanto a menina muda o meu soro.

-Não é remédio para dormir, né?

-Só mais tarde... Esse é pra controlar suas arritmias. Antes de dormir, que tal um café da manhã reforçado?

-Queria um pouco de água antes.

-Vou trazer pra você…

Ele acorda levantando a cabeça e pegando minha mão que estava alisando seu cabelo. Beijando a palma.

-Oi… -Murmuro.

-Oi... Que horas são?

-Pelo o que a enfermeira disse é de manhã.

Eu confirmo:

-Você não devia está vendo outros pacientes?

-Você é minha vip. E Bernardo me mataria se te deixasse sozinha. É a primeira vez que ele sai de perto.

-Ele me disse que vocês estavam exagerando…

Ele levanta minha cama novamente e se senta onde Bernardo estava. Pega uns papéis de uma máquina e começa a olhar para ele.

-Não é exagero Camilinha. Ele não saiu daqui... Seus exames estão bons. O ECG é animador!

-Está falando isso para me deixar empolgada!

Ele me olha e sorri.

-Está uma bosta, em relação a uma pessoa normal. Mais para o seu estado está promissor.

Eu sorrio.

-Desculpe, eu devia ter ficado internada.

-É... Você devia... Já estava se sentindo mal, né?

Eu confirmo com a cabeça. Eu só queria deixar as coisas em ordem antes que me internar para operar. Acho que piorei as coisas drasticamente. Sabrina não conseguirá resolver tudo no ateliê e pela primeira vez, eu não conseguirei cumprir contratos. Acabou que eu corri um risco tremendo. Se não fosse o Bernardo.

-O quê aconteceu?

-Acho que não devemos conversar sobre isso. Não importa! O que importa é que você precisa se manter assim... Estável... Para eu poder te operar o mais rápido possível. Daqui a pouco você vai ser transferida para um quarto normal, pois duvido que Bê vai te deixar sozinha... então não tem muito cabimento eu te manter na terapia intensiva.

-Porque eu já tenho um médico de plantão. -Ele ri confirmando.

-E também porque eu estou tendo problemas com ele aqui dentro. Vai poder receber visitas, mas se ficar estressada e agitada eu vou te sedar de novo Camila.

-Vou tentar me comportar…

-Não é tentar Camila... Você não tem escolha. -Ele fala me encarando e logo depois segura a minha mão ainda sério. -Achamos teu acessório quando você chegou aqui. Eu devo me preocupar?

Eu demoro pra entender do que ele está falando, até que lembro que eu estava com o cilício quando eu passei mal. Merda! Eu pus porque eu precisava me controlar para não ter crises de pânico. Eu não queria passar mal e piorar meu estado.

Na mesma hora fico com vergonha. Essas pessoas viram o meu fracasso. Pior, Arthur viu com os próprios olhos o que escondo de todo mundo.

-Contou para o Bernardo? -minha voz sai baixa, nem eu a reconheço.

-Não. Quem deve contar isso é você, não eu... Estamos aqui como paciente e médico. Devo me preocupar com suas crises de dor?

-Não. Eu não estou me mutilando, era só pra me manter em controle.

Ele confirma.

-Estava com medo de ter uma crise de pânico?

-Sim ... Eu não podia... Você mesmo disse…

Ele confirma mais uma vez com a cabeça.

-Já conversou com sua terapeuta. Ela sabe que você ainda continua usando aquilo?

-Ela sabe que eu tenho recaídas Arthur. São só recaídas…

-Ok! Eu só queria entender.

Eu sorrio para ele. Agora vou ter que falar com Bernardo, se não ele não vai me deixar em paz. Não mesmo.

Troco de assunto, porque não quero falar sobre isso.

-Pelo jeito não faremos mais o cateterismo né?

Ele olha mais uma vez para o papel na mão.

-Não... Vamos operar... Acho mais seguro do que fazer um reparo.

Merda! E se eu não resistir a operação? Agora eu tenho tanto a perder, meu Deus!

O aparelho começa a bipar mais rápido.

-Camila…

-Desculpe ... Eu tenho muito medo de operar... Desculpe!

Ele agarra a minha mão e começa a fazer o exercício da respiração comigo. E eu faço... Aos poucos eu vou voltando ao normal.

-Vai ser muito mais perigoso se eu fizer um reparo e essa válvula dar problema lá na frente. Operando não corremos esse risco.Entendeu? Confie em mim... Eu vou dar o meu melhor.

Confirmo com a cabeça. Não tenho para onde correr. Eu preciso confiar nele. Eu só preciso…

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