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A Redenção do Ogro romance Capítulo 88

Bernardo Thomson

-Ela escondeu de todo mundo, meu filho.

-A quanto tempo vocês sabem?

-Há uma semana. Eu e Arthur ficamos sabendo por acaso. O caso caiu em nossas mãos.

-Então porque não me contaram assim que souberam, tio?

-Porque ela não nos autorizou. Ela é uma paciente, ela tem esse direito.

-Arthur pôs a ética profissional acima da nossa lealdade.

-Neste caso foi preciso.

Uma ova que foi preciso. Como Paulo sabe então?

Aí começa a cair a ficha. Se eu não voltasse de viagem eu não ia saber de nada. Eu só ia saber quando retornasse. E se eu não estivesse lá?

Eu não sei o que teria acontecido com ela, porque Camila morreu em meus braços…

-Eu voltei antes da hora né…

Olho para ele me sentindo traído. Por todos... Principalmente por Camila. Ela achava o que? Que eu era um moleque? Que eu ia deixar ela sozinha nesse momento difícil?

Talvez seja exatamente por causa disso que ela escondeu a verdade

Eu nunca fiz questão de demonstrar maturidade pra ninguém. Eu nunca fiz questão de dizer que eu me importava, eu nem sabia que eu me importava tanto.

Para ela imaginar que se eu soubesse que ela estava doente, eu teria pena dela, seria um pulo...

Eu causei isso... Eu…

-Sim... O plano era ela passar pela operação, e quando você retornasse ela te contaria a verdade. Ela não queria que você mudasse a sua forma de ver a vida por pena dela. Na verdade, ela não queria que ninguém soubesse porque não achava justo com nenhum de vocês. O que eu acho um absurdo! Como essa menina ia se virar sozinha?

Provavelmente ela não contou a história toda para eles. Então eles não sabem do passado dela. Eu entendo essa parte, porque Camila nunca confiou em ninguém para dividir as suas guerras. A primeira pessoa que ela passou a confiar fui eu... Porque eu forcei a entrada. E provavelmente ela confiou na Fernanda, pelo mesmo motivo.

Então isso nem me surpreende.

-Camila foi negligenciada pela sua mãe tio... Ela foi abusada pelo seu padrasto. Desde cedo teve que se virar sozinha, então confiança é algo que ela mantém como um limite rígido.

Ele fica horrorizado olhando pra mim.

-Meu pai amado! Agora tudo faz sentido. A negligência dos pais a levaram a não saber do seu estado de saúde. Por isso ela não sabia do sopro.

-Provavelmente. E por nunca ter sintomas...

-Porque você nunca contou isso para seus irmãos. Do passado dela…

-Porque não era meu segredo pra contar tio…

Ele levanta uma sobrancelha e me olha. Eu sei aonde ele quer chegar. Assim como eu não contei do passado dela para ninguém, porque não era meu segredo para contar. Eles fizeram o mesmo por ela.

-Não é igual tio.

-Como não?

-A saúde dela não estava em jogo! E se acontecesse algo com ela... E se eu não tivesse lá no momento que ela passou mal .... Ela estaria sozinha dentro daquele ateliê. Não ia dar tempo de avisar ninguém... Camila não era para estar em casa tio... Pra começo de conversa.

-Ela passou alguns dias internada fazendo todos os exames que Arthur pediu... Ela teve muitos episódios de arritmia neste período, mas estava bem quando recebeu alta.

-Quando ela recebeu alta?

-Ontem…

-Porque ela não foi para a casa do Paulo então... Ou do Arthur.

-Fernanda estava com ela Bernardo…

-Fazendo segurança na frente da loja.

Ele não fala mais nada. Vai falar o que?

Volto a lembrar dela apagada em meus braços. Com aqueles lábios que tanto amo roxos. E meu coração volta a ficar descompassado.

Passo a mão pelos cabelos e rosto. Que agonia! Me levanto da mesa e saio andando pelo corredor. Eu preciso muito de ar! Eu preciso…

-Bernardi, espera!

Escuto meu tio me chamando e me seguindo, mas eu não paro. Eu só preciso sair um pouco do hospital.

Chego no lado de fora, num jardim que tem na frente da recepção e respiro fundo, fechando meus olhos e respirando o ar da noite... Me escoro no muro de pedra e fico vendo os carros passando na rua.

Perco a noção do tempo ali... Só revivendo tudo que aconteceu com ela.

E se eu não estivesse lá?

Como será que ela está?

Será que Arthur conseguiu estabilizar ela?

Logo agora que eu resolvi admitir meus sentimentos. Eu tinha tantos planos… Queria filhos, dividir um lar... Queria cuidar dela.

Olho para a porta da recepção e vejo meu tio me olhando de longe. Ele sabe o que eu estou sentindo... Claro que sabe ... Ele perdeu uma filha.

Lembro do meu terapeuta me dizendo que todos os sentimentos que nutrimos são sinônimos do amor universal. Não importa o nome que a gente dê a ele.

Ele sabe a dor da perda!

O que vou fazer daqui por diante, se isso acontecer com Camila?

Ele vem andando devagar em minha direção e diz.

-Ela está com um pouco de fibrilação atrial. Mas já melhorou bastante. Botei ela para dormir para deixar o corpo se recuperar. Ela teve uma parada cardíaca, o corpo precisa de um tempo.

-Ela ficou com alguma sequela?

-Acho que não... Ela acordou algumas vezes... Estava confusa mas isso é normal. Foi um baita estresse. Seus reflexos estão bons, a válvula mitral que não está nada boa…

Olho para ele e digo:

-O quê vai fazer?

-Eu ia tentar reparar com uma valvotomia, mas nem vou tentar. A troca de válvula é mais garantida, menos arriscada...E eu não quero me arriscar com Camila. Eu só preciso que ela se recupere para ir para a cirurgia, então nada de estresse Bernardo. Não faça cobranças, não converse agora... Ela precisa de paz quando acordar…Eu confirmo com a cabeça. Ele sai do outro lado e fica ao meu lado com uma mão no meu ombro. -Ela vai ficar bem.

Eu suspiro…

E sinto a primeira lágrima descer pelo meu rosto. Não sei se estou chorando de alívio ou de não conseguir mais segurar. Eu só sei que sinto como se meu peito estivesse comprimindo.

Eu não consigo mais segurar, e eu segurei tanto.

Sinto ele me abraçando. Se meu pai me visse agora, ele diria que eu sou fraco! Demonstrando fraqueza na frente das enfermeiras e do meu melhor amigo.

E como se eu precisasse me justificar sobre está sendo um fraco eu digo:

-Me desculpe!

Me afasto dele e vou para o canto tentar achar o meu controle.

-Bernardo... Não é feio chorar... Você tem todo direito, ela morreu em seus braços. E graças a você, ela está respirando agora.

-O quê me leva a questão. E se eu não tivesse aparecido? E se ela estivesse sozinha? Ela não podia estar lá sozinha ...- Falo olhando para ele e as lágrimas descendo. Merda! Porque eu não consigo parar de chorar?

-Eu não podia amarrar ela aqui ou no casarão. Camila é bem convincente quando quer ser. Eu nem queria dar alta para ela, apesar de ela falar o tempo todo que estava bem. Por mim ela ficaria aqui até os exames ficarem prontos e ela ir para a cirurgia.

-Ele já tinha tido um desses episódios?

-Não. Foi o primeiro. Se acalme, agora ela vai ficar bem…

-Você não pode me garantir isso…

-É... você tem razão. Não posso... Mas eu vou fazer tudo que tiver ao meu alcance para cumprir essa promessa, meu irmão.

Eu confirmo... Segurando as mãos dela novamente. Ele alisa o meu ombro e se afasta.

Vejo ele dando ordens para a enfermeira, mas não presto atenção em nada do que ele diz.

Eu só quero ficar aqui, memorizar cada pedacinho de seu rosto. E orar... Pedir a Deus para que ela volte para mim.

Eu me recuso a viver longe dela.

Eu não quero.

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