Clarice já havia se posicionado atrás de Vânia e, num gesto de pura “bondade”, puxou a cadeira para que ela saísse.
Em seguida, acomodou-se tranquilamente ao lado de Erasmo.
— Você é tão bonita por fora quanto é generosa por dentro, irmãzinha — alfinetou Clarice.
— ... — Vânia ficou sem palavras.
Desde quando Clarice tinha se tornado tão cínica e sem-vergonha?
Porém, como as palavras já haviam saído de sua boca, ela não tinha escolha a não ser fingir que havia cedido o lugar de boa vontade e sem se sentir ofendida.
— Ah, já terminaram com esse teatrinho? Estou morrendo de fome, será que podemos começar a comer? — reclamou uma voz.
Quem falou foi um jovem de cerca de vinte anos. Ele ostentava traços finos e elegantes como os demais, mas carregava uma forte aura de arrogância e agressividade.
— Muito bem, vamos servir. O meu netinho querido já está com fome — concordou a idosa, dando uma risada carinhosa.
Clarice o observou por um instante e logo deduziu que o tal “netinho” só poderia ser Kelton Alves, o filho caçula de Ezequiel, que acabara de entrar na faculdade.
Exatamente naquele momento, Kelton levantou os olhos e a fulminou com um olhar de puro descontentamento.
— O que você está olhando? Tá pedindo pra perder os olhos? — perguntou Kelton.
— O que você está fazendo? — murmurou Adelina, puxando Kelton rapidamente pelo braço para contê-lo.
— Não se meta na minha vida. Quem você pensa que é para me dar ordens? — rosnou Kelton de volta.
Clarice franziu a testa. Pelo visto, os boatos de fora eram verdadeiros. O jovem senhor da Família Alves havia sido mimado até a alma. Numa família tradicional como aquela, as regras costumavam ser extremamente rígidas.
No entanto, Kelton podia fazer escândalos à vontade sem que ninguém o repreendesse.
— Engula essas palavras. Caso contrário, não me importarei em fazer você experimentar a sensação de viver na escuridão mais cedo do que imagina — disse Erasmo, lançando-lhe um olhar glacial.
Clarice não disse uma única palavra; apenas permaneceu sentada em silêncio. Desde o instante em que haviam cruzado as portas daquela mansão, todos pareciam dispostos a atacá-los.
Fosse com farpas verbais ou com olhares afiados.
— Acha que eu me assusto com ameaças vazias? Você não ousaria tocar em um fio de cabelo meu... — debochou Kelton.
*Bang!* O som ecoou alto no salão, enquanto um garfo cravava-se com violência na mesa, bem diante dos olhos de Kelton, a meros milímetros da sua mão.
As palavras do garoto morreram na garganta na mesma fração de segundo. Ele engoliu em seco, encarando fixamente o garfo trêmulo em sua frente.
Otília agarrou a mão de Kelton de imediato, em pânico, para verificar se ele havia se machucado. O rosto de Ezequiel, por sua vez, adquiriu um tom sombrio e aterrador.


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